Considerações sobre a felicidade
Muitas coisas acontecem por acaso, e diferem quanto à importância; embora os pequenos incidentes felizes ou infelizes não pesem muito na balança, uma grande e frequente quantidade de sucessos tornará nossa vida mais feliz, não apenas porque isso, por sua própria natureza, faz aumentar a beleza da vida, mas também porque pode ser usado de maneira nobre e boa; ao contrário, muitos e constantes revezes poderão aniquilar e mutilar a felicidade, pois além de serem acompanhados de dor, impedem muitas atividades. No entanto, mesmo na adversidade a nobreza de uma homem se deixa mostrar, quando aceita com resignação muitos e grandes infortúnios, não por ser insensível à dor, mas por nobreza e grandeza de alma.
Se as atividades são, como dissemos, o que dá caráter à vida, nenhum homem feliz pode tornar-se desgraçado, pois ele jamais praticará atos odiosos ou ignóbeis. Pensamos que o homem verdadeiramente bom e sábio suporta com dignidade toda as circunstâncias, como um general que faz o melhor uso possível do exército sob o seu comando, ou um bom sapateiro que faz os melhores calçados com o couro que lhe dão; e o mesmo acontece com todos os outros artífices. Desse modo, o homem feliz jamais poderá vir a se tornar desgraçado, embora não alcance a beatitude se tiver uma sorte igual à de Príamo. E tampouco sua sorte será inconstante ou muito desigual, pois não se deixará desviar facilmente da sua felicidade por quaisquer desventuras triviais, mas somente por muitas e grandes; nem, se sofreu muitas e grandes desgraças, recuperará em curto espaço de tempo a sua felicidade. Se a recuperar, será depois de um longo tempo, durante o qual tiver alcançado muitos e belos sucessos.
Por que, então, não diremos que é feliz aquele que age conforme à virtude perfeita e está suficientemente provido de bens exteriores, não durante um período de tempo qualquer, mas por toda a vida? Ou deveríamos acrescentar: “E que está destinado a viver assim e a morrer de modo compatível com a vida que levou”? Com efeito, o futuro nos é impenetrável, enquanto a felicidade concebemos como um fim em si mesmo. Sendo assim, devemos qualificar de felizes aqueles dentre os seres humanos vivos em que as condições que mencionamos se realizem ou estejam destinadas a realizar-se – mas tudo isso obedecendo as limitações da natureza humana. [...]
Aristóteles, in Ética a Nicômaco, Editora Martin Claret, Coleção “Obra Prima de Cada Autor”p. 33-34






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