Sobre decaptações
Hoje não dormi muito bem, acordei de madrugada e até agora estou sem sono, resolvi então entrar nos fóruns dos quais participo, dar uma olhada nos tópicos e bater um papo com o pessoal. Abri alguns sites de notícias que costumo frequentar, alguns blogs sobre humor e alguns sites de vídeos. Não lembro ao certo que link levou-me até uma história sobre decaptação onde pais reconheceram o filho perdido em um vídeo, sendo decaptado. O fato em questão foi bem noticiado e um jovem se entregou às autoridades dizendo ter sido ele o uploader do referido vídeo em alguns fóruns Neonazistas, eu apenas fui ter conhecimento de tal situação hoje. Isso me fez recordar da série de vídeos de decaptação promovida pelos grupos que enfrentavam os EUA no Afeganistão e em particular de um ainda mais chocante, pelo simples fato de uma criança ser a executora da ação.
Toda essa violência me fez pensar muito sobre as políticas e o relacionamento entre diferentes religiões e seus seguidores, bem como acerca da forma como são interpretadas as palavras sagradas de certas ordens, seita e grupos religiosos. Lembrei-me de um tópico em um dos fóruns onde participo que apresentava uma notícia do crescimento do islamismo nas periferias brasileiras.
Para homens como Honerê, Malik e Sharif, é o mais perto que conseguiram chegar de si mesmos. Eles já foram Carlos, Paulo e Ridson. Converteram-se ao islã e forjaram uma nova identidade. São pobres, são negros e, agora, são muçulmanos. Quando buscam o coração islâmico do mundo com a mente, acreditam que o Alcorão é a resposta para o que definem como um projeto de extermínio da juventude afro-brasileira: nas mãos da polícia, na guerra do tráfico, na falta de acesso à educação e à saúde.
Pelo texto da notícia fica a impressão de que esses jovens, com poucos recursos e acesso aos seus direitos mais basicos, encontraram na religião uma forma de expressão e de compreensão da “realidade” como um todo e um meio de mostrarem sua indignação com o que consideram um projeto de extermínio.
Ao cravar a bandeira do islã no alto da laje, vislumbram um estado muçulmano no horizonte do Brasil. E, ao explicar sua escolha, repetem uma frase com o queixo contraído e o orgulho no olhar: “Um muçulmano só baixa a cabeça para Alá – e para mais ninguém”.
Não pretendo aqui relacionar o islamismo às decaptações, apenas busco compreender o porque da adoção dessa forma de violência por parte dos grupos fundamentalistas como forma de espalhar sua mensagem. Continuando sobre a reportagem da revista Época.
Enquanto o islamismo soou como religião étnica, trazida ao Brasil pelos imigrantes árabes a partir da segunda metade do século XIX, não houve identificação. Mas, quando o movimento negro, e depois o rap, difundiu a revolta dos malês como uma inflexão de altivez numa história marcada pela submissão, a religião passou a ser vista como raiz a ser resgatada. Os jovens muçulmanos dizem que não se convertem, mas se “revertem” – ou voltam a ser. Para eles, a palavra tem duplo significado: recuperar uma identidade sequestrada pela escravidão e pertencer a uma tradição da qual é possível ter orgulho.
As igrejas evangélicas neopentecostais, que surgiram e se multiplicaram a partir dos anos 80, com grande penetração nas periferias e cadeias, não tinham apelo para jovens negros em busca de identidade e sem vocação para rebanho. “Na igreja evangélica da minha mãe, me incomodava aquela história de Cristo perdoar tudo. Eu já tinha apanhado de polícia pra cacete. E sempre pensava em polícia, porque o tapa na cara é literal. Então, o dia em que tiver uma necessidade de conflito, vou ter de virar o outro lado da cara?”, diz Ridson Mariano da Paixão, de 25 anos. “Eu não estava nesse espírito passivo. Pelo Malcolm X, descobri que, no islã, temos o direito de nos defender. Deus repudia a violência e não permite o ataque, mas dá direito de defesa. Foi esse ponto fundamental que me pegou também quando eu vi pela TV o 11 de setembro e achei que o mundo ia acabar.” Eles se inspiram em Malcolm X e acreditam que o 11 de setembro divulgou o islã entre os oprimidos
Essa parte da reação realmente me deixou um tanto preocupado, haja vista que uma má interpretação ou um eufemismo bem preparado pode tornar uma pessoa emotivamente tendenciosa em uma pessoa impulsiva que acabaria usando de violência ao se defender e possivelmente impondo sua visão religiosa aos outros.
Honerê tornou-se um dos principais divulgadores da religião no ABC paulista. Ele é dirigente do Movimento Negro Unificado (MNU) e funcionário do Centro de Divulgação do Islam para a América Latina (CDIAL). Para ele, como para a maioria dos muçulmanos negros, não faz a menor diferença que raça não exista como conceito biológico. Raça é um conceito cultural, que determinou todas as assimetrias socioeconômicas que determinaram sua vida e hoje representa um elemento fundamental na construção de sua identidade, inclusive a religiosa. Ele narra com clareza como Carlos Soares Correia transformou-se em Honerê Al Amin Oadq, em meados dos anos 90:
– Minha mãe era doméstica em casa de branco, muitas vezes foi chamada de “negra infeliz”. Eu percebia que, no sistema de saúde e a todo lugar que eu ia, só gente da minha cor passava por dificuldades. Eu mesmo já levei coronhada da polícia sem justificativa, já defendi mulher negra no metrô, porque branco bêbado achava que era prostituta. Não tem um negro neste país que não tenha uma história de discriminação para contar. Então fui em busca da minha história. Era o tempo em que o rap era música de preto para preto. E o rap me apresentou Malcolm X. Aos 14, 15 anos, ele se tornou a minha grande referência político-racial. Depois descobri a história dos malês. Eles estavam num nível diferente se comparar com os outros negros da senzala. Não bebiam, não fumavam, sabiam escrever, eram instruídos. Se tivessem conseguido tomar a Bahia naquele 25 de janeiro de 1835, teriam o país em suas mãos, e o Brasil seria um estado islâmico.
Aqui está para mim o grande problema do islamismo. Em países islâmicos o estado se confunde e em alguns casos é um estado com profundas raízes teocráticas, o que por si só o torna ineficiente para garantir a coexistência pacífica de pessoas de credos diferentes sob uma mesma bandeira.O tópico no fórum se tornou uma discussão acalentada onde alguns ânimos se exaltaram e muitos acabaram por confundir muçulmanos com terroristas, em parte por conta do ataque ao WTC no fatídico 11 de setembro, uma situação, ao menos pra mim, até hoje não devidamente investigada e que culminou em uma profunda comoção no povo norte-americando proporcionando assim todos os elementos necessários para medidas agressivas por parte do governo Bush e que culminaram com as guerras do Afeganistão e Iraque.
Bom, não pretendo discorrer sobre toda essa questão, mesmo porque reconheço não ser um especialista em área alguma nela envolvida, mas apenas esboçar alguns pequenos traços e quem sabe conseguir uma boa discussão com alguns amigos. Mas para finalizar gostaria de deixar clara a minha posição contrária a todo e qualquer estado onde uma religião impere ou mesma seja oficial, acredito sim que um estado democrático e laico seja a melhor forma de governo para um povo, que devidamente esclarecido, deve participar ativamente cobrando seus direitos e cumprindo com os seus deveres. Infelizmente não considero meu país um estado democrático, de fato temos todas as instituições necessárias à um estado democrático, temos boas leis, apesar do que dizem os telejornais policiais e nosso povo, que infelizmente, ainda permanece esquecido quando o assunto é educação.
Seria a educação ou a adoção de uma religião oficial a solução para os problemas do ser humano?
É a pergunta que deixo.






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