[ leituras, reflexões, dia-a-dia, e algo mais ]

Sobre decaptações

Publicado em Notícias, Reflexão por usucapiao em Março 12, 2009

Hoje não dormi muito bem, acordei de madrugada e até agora estou sem sono,  resolvi então entrar nos fóruns dos quais participo, dar uma olhada nos tópicos e bater um papo com o pessoal. Abri alguns sites de notícias que costumo frequentar, alguns blogs sobre humor e alguns sites de vídeos. Não lembro ao certo que link levou-me até uma história sobre decaptação onde pais reconheceram o filho perdido em um vídeo, sendo decaptado. O fato em questão foi bem noticiado e um jovem se entregou às autoridades dizendo ter sido ele o uploader do referido vídeo em alguns fóruns Neonazistas, eu apenas fui ter conhecimento de tal situação hoje. Isso me fez recordar da série de vídeos de decaptação promovida pelos grupos que enfrentavam os EUA no Afeganistão e em particular de um ainda mais chocante, pelo simples fato de uma criança ser a executora da ação.

Toda essa violência me fez pensar muito sobre as políticas e o relacionamento entre diferentes religiões e seus seguidores, bem como acerca da forma como são interpretadas as palavras sagradas de certas ordens, seita e grupos religiosos. Lembrei-me de um tópico em um dos fóruns onde participo que apresentava uma notícia do crescimento do islamismo nas periferias brasileiras.

Para homens como Honerê, Malik e Sharif, é o mais perto que conseguiram chegar de si mesmos. Eles já foram Carlos, Paulo e Ridson. Converteram-se ao islã e forjaram uma nova identidade. São pobres, são negros e, agora, são muçulmanos. Quando buscam o coração islâmico do mundo com a mente, acreditam que o Alcorão é a resposta para o que definem como um projeto de extermínio da juventude afro-brasileira: nas mãos da polícia, na guerra do tráfico, na falta de acesso à educação e à saúde.

Pelo texto da notícia fica a impressão de que esses jovens, com poucos recursos e acesso aos seus direitos mais basicos, encontraram na religião uma forma de expressão e de compreensão da “realidade” como um todo e um meio de mostrarem sua indignação com o que consideram um projeto de extermínio.

Ao cravar a bandeira do islã no alto da laje, vislumbram um estado muçulmano no horizonte do Brasil. E, ao explicar sua escolha, repetem uma frase com o queixo contraído e o orgulho no olhar: “Um muçulmano só baixa a cabeça para Alá – e para mais ninguém”.

Não pretendo aqui relacionar o islamismo às decaptações, apenas busco compreender o porque da adoção dessa forma de violência por parte dos grupos fundamentalistas como forma de espalhar sua mensagem. Continuando sobre a reportagem da revista Época.

Enquanto o islamismo soou como religião étnica, trazida ao Brasil pelos imigrantes árabes a partir da segunda metade do século XIX, não houve identificação. Mas, quando o movimento negro, e depois o rap, difundiu a revolta dos malês como uma inflexão de altivez numa história marcada pela submissão, a religião passou a ser vista como raiz a ser resgatada. Os jovens muçulmanos dizem que não se convertem, mas se “revertem” – ou voltam a ser. Para eles, a palavra tem duplo significado: recuperar uma identidade sequestrada pela escravidão e pertencer a uma tradição da qual é possível ter orgulho.
As igrejas evangélicas neopentecostais, que surgiram e se multiplicaram a partir dos anos 80, com grande penetração nas periferias e cadeias, não tinham apelo para jovens negros em busca de identidade e sem vocação para rebanho. “Na igreja evangélica da minha mãe, me incomodava aquela história de Cristo perdoar tudo. Eu já tinha apanhado de polícia pra cacete. E sempre pensava em polícia, porque o tapa na cara é literal. Então, o dia em que tiver uma necessidade de conflito, vou ter de virar o outro lado da cara?”, diz Ridson Mariano da Paixão, de 25 anos. “Eu não estava nesse espírito passivo. Pelo Malcolm X, descobri que, no islã, temos o direito de nos defender. Deus repudia a violência e não permite o ataque, mas dá direito de defesa. Foi esse ponto fundamental que me pegou também quando eu vi pela TV o 11 de setembro e achei que o mundo ia acabar.” Eles se inspiram em Malcolm X e acreditam que o 11 de setembro divulgou o islã entre os oprimidos

Essa parte da reação realmente me deixou um tanto preocupado, haja vista que uma má interpretação ou um eufemismo bem preparado pode tornar uma pessoa emotivamente tendenciosa em uma pessoa impulsiva que acabaria usando de violência ao se defender e possivelmente impondo sua visão religiosa aos outros.

Honerê tornou-se um dos principais divulgadores da religião no ABC paulista. Ele é dirigente do Movimento Negro Unificado (MNU) e funcionário do Centro de Divulgação do Islam para a América Latina (CDIAL). Para ele, como para a maioria dos muçulmanos negros, não faz a menor diferença que raça não exista como conceito biológico. Raça é um conceito cultural, que determinou todas as assimetrias socioeconômicas que determinaram sua vida e hoje representa um elemento fundamental na construção de sua identidade, inclusive a religiosa. Ele narra com clareza como Carlos Soares Correia transformou-se em Honerê Al Amin Oadq, em meados dos anos 90:
– Minha mãe era doméstica em casa de branco, muitas vezes foi chamada de “negra infeliz”. Eu percebia que, no sistema de saúde e a todo lugar que eu ia, só gente da minha cor passava por dificuldades. Eu mesmo já levei coronhada da polícia sem justificativa, já defendi mulher negra no metrô, porque branco bêbado achava que era prostituta. Não tem um negro neste país que não tenha uma história de discriminação para contar. Então fui em busca da minha história. Era o tempo em que o rap era música de preto para preto. E o rap me apresentou Malcolm X. Aos 14, 15 anos, ele se tornou a minha grande referência político-racial. Depois descobri a história dos malês. Eles estavam num nível diferente se comparar com os outros negros da senzala. Não bebiam, não fumavam, sabiam escrever, eram instruídos. Se tivessem conseguido tomar a Bahia naquele 25 de janeiro de 1835, teriam o país em suas mãos, e o Brasil seria um estado islâmico.

Aqui está para mim o grande problema do islamismo. Em países islâmicos o estado se confunde e em alguns casos é um estado com profundas raízes teocráticas, o que por si só o torna ineficiente para garantir a coexistência pacífica de pessoas de credos diferentes sob uma mesma bandeira.O tópico no fórum se tornou uma discussão acalentada onde alguns ânimos se exaltaram e muitos acabaram por confundir muçulmanos com terroristas, em parte por conta do ataque ao WTC no fatídico 11 de setembro, uma situação, ao menos pra mim, até hoje não devidamente investigada e que culminou em uma profunda comoção no povo norte-americando proporcionando assim todos os elementos necessários para medidas agressivas por parte do governo Bush e que culminaram com as guerras do Afeganistão e Iraque.

Bom, não pretendo discorrer sobre toda essa questão, mesmo porque reconheço não ser um especialista em área alguma nela envolvida, mas apenas esboçar alguns pequenos traços e quem sabe conseguir uma boa discussão com alguns amigos. Mas para finalizar gostaria de deixar clara a minha posição contrária a todo e qualquer estado onde uma religião impere ou mesma seja oficial, acredito sim que um estado democrático e laico seja a melhor forma de governo para um povo, que devidamente esclarecido, deve participar ativamente cobrando seus direitos e cumprindo com os seus deveres. Infelizmente não considero meu país um estado democrático, de fato temos todas as instituições necessárias à um estado democrático, temos boas leis, apesar do que dizem os telejornais policiais e nosso povo, que infelizmente, ainda permanece esquecido quando o assunto é educação.

Seria a educação ou a adoção de uma religião oficial a solução para os problemas do ser humano?

É a pergunta que deixo.

Carta de Aprendizado

Publicado em Livros por usucapiao em Fevereiro 25, 2009

Longa é a arte, breve a vida, difícil o juízo, fugaz a ocasião. Agir é fácil, difícil é pensar. Incômodo é agir de acordo com o pensamento. Todo começo é claro, os umbrais são o lugar da esperança. O jovem se assombra, a impressão o determina, ele aprende brincando, o sério o surpreende. A imitação nos é inata, mas o que se deve imitar não é fácil de reconhecer. Raras as vezes onde se encontra o excelente, mais raro ainda apreciá-lo. Atraem-nos a altura, não os degraus; com os olhos fixos no pico caminhamos de bom grado pela planície. Só uma parte da arte pode ser ensinada, e o artista a necessita por inteiro. Quem a conhece pela metade engana-se sempre e fala muito; quem a possui por inteiro, só pode agir, fala pouco ou tardiamente. Aqueles não têm segredos nem força; seu ensinamento é como pão cozido, que tem sabor e a sacia por um dia apenas; mas não se pode semear a farinha, e as sementes não devem ser  moídas. As palavras são boas, mas não são o melhor. O melhor não se manifesta pelas palavras. O espírito, pelo qual agimos, é o que há de mais elevado. Só o espírito compreende e representa a ação. Ninguém sabe o que ele faz quando age com justiça; mas do injusto temos sempre consciência. Quem só atua por símbolos é um pedante, um hipócrita ou um embusteiro. Estes são numerosos e se sentem bem juntos. Sua verborragia afasta o discípulo e sua pertinaz mediocridade inquieta os melhores. O ensinamento do verdadeiro artista abre o espírito, pois onde faltam as palavras, fala a ação. O verdadeiro discípulo aprende a desenvolver do conhecido o desconhecido e aproxima-se do mestre.
Goethe, in “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister”

Em busca de harmonia

Publicado em Livros, Reflexão por usucapiao em Fevereiro 16, 2009

Aquele que nasceu com talento para algum talento, nele encontra sua mais bela existência! Não existe coisa alguma nesta terra sem dificuldade! Só o impulso interior, o amor e o desejo nos ajudam a superar os obstáculos, a abrir caminhos e a elevar-nos acima do estreito círculo onde outros miseravelmente se debatem! [...] Não sentes esse todo arder coeso, que só o espírito descobre, concebe e realiza; não sentes que lateja nos homens uma centelha melhor que, não encontrando alento nem ânimo, é soterrada pelas cinzas das necessidades quotidianas e da indiferença, e, ainda assim, por mais tarde que seja, nunca é abafada. Não sentes em tua alma força alguma para avivá-la, nem em teu coração a riqueza necessária para alimentar aquilo que despertaste. [...] e não há também homens que, privados de tal forma do sentimento da vida, chegam a considerar toda a vida e a própria natureza dos mortais um nada, uma existência atormentada, semelhante ao pó?

Goethe, in Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister (Editora 34,Primeira Ediçãp, p. 68-69)

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O caminho para a liberdade

Publicado em Livros, Reflexão por usucapiao em Fevereiro 16, 2009

[...] Durante 99% do período de existência dos seres humanos, ninguém sabia ler ou escrever. A grande invenção ainda não fora criada. À exceção da experiência em primeira mão, quase tudo o que conhecíamos era transmitido oralmente. Como no brinquedo infantil “telefone sem fio”, durante dezenas e centenas de gerações, as informações foram lentamente distorcidas e perdidas.

Os livros mudaram tudo isso. Passíveis de ser adquiridos a um preço barato, eles nos possibilitam interrogar o passado com algum grau de precisão; estabelecer comunicação com a sabedoria de nossa espécie; compreender o ponto de vista de outros, e não apenas o dos que estão no poder; considerar – com os melhores professores – as idéias extraídas a duras penas da Natureza pelas maiories inteligências que já existiram em todo o planeta e em toda a nossa história. Permitem que pessoas há muito tempo mortas falem dentro de nossas cabeças. Os livros podem nos acompanhar por toda parte. Pacientes quando custamos a compreender, eles nos deixam rever as partes difíceis quantas vezes desejarmos, e jamais criticam nossos lapsos. Os livros são essenciais para compreender o mundo e participar de uma sociedade democrática.

[...] Se ninguém perto de nós gosta de ler, onde está a prova de que vale a pena o esforço? Se a qualidade da educação a que temos acesso é inadequada, se não nos ensinam a pensar, mas só a repetir uma decoreba automática, se o conteúdo do que nos dão para ler provém de uma cultura quase alienígena, aprender a ler pode ser um caminho de pedras

[...] Se estamos preocupados com a falta de apoio familiar básico, ou se somos jogados num mar turvo de raiva, abandono, exploração, perigo e ódio contra nós mesmos, podemos muito bem concluir que ler custa muito esforço e simplesmente não vale a pena. Se ouvimos repetidamente a mensagem de que somos estúpidos demais para aprender (ou, o equivalente funcional, legais demais para aprender), e não há por perto ninguém que a contradiga, podemos muito bem seguir esse conselho pernicioso.

[...] Ninguém devia deixar de aprender a ler por não ter acesso à educação.

[...] Os tiranos e os autocratas sempre compreenderam que a capacidade de ler, o conhecimento, os livros e os jornais são potencialmente perigosos. Podem insuflar idéias independentes e até rebeldes nas cabeças de seus súditos.

[...] As rodas dentadas da pobreza, ignorância, falta de esperança e baixa auto-estima se engrenam para criar um tipo de máquina do fracasso perpétuo que esmigalha os sonhos de geração a geração. Nós todos pagamos o preço de mantê-la funcionando. O analfabetismo é a sua cavilha.

[...] Há muitos tipos de escravidão  e muitos tipos de liberdade. Mas saber ler ainda é o caminho.

Carl Sagan, in O Mundo Assombrado Pelos Demônios

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Luminosidade

Publicado em Livros, Reflexão por usucapiao em Fevereiro 15, 2009

[...] Então, por um instante, tive a mais tremenda sensação de pena dos seres humanos, sejam eles o que forem, o rosto, a boca cheia de dor, personalidades, tentativas de ser alegres, pequenas petulâncias, sensação de perda, piadinhas chatas e vazias que logo seriam esquecidas: ah, para quê? [...] Subi a colina aos tropeções, cumprimentado pelos passarinhos, e olhei para as figuras dormentes e acotoveladas no chão. Quem seriam todos esses fantasmas estranhos enraizados a essa tola aventurazinha na terra junto comigo?

Jack Kerouac, in Vagabundos Iluminados

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O caminho do conhecimento e suas distrações

Publicado em Livros, Reflexão por usucapiao em Fevereiro 5, 2009

A compreensão humana não é um exame desinteressado, mas recebe infusões da vontade e dos afetos; disso se originam ciências que podem ser chamadas “ciências conforme a nossa vontade”. Pois um homem acredita mais facilmente no que gostaria que fosse verdade. Assim, ele rejeita coisas difíceis pela impaciência de pesquisar; coisas sensatas, porque diminuem a esperança; as coisas mais profundas da natureza, por superstição; a luz da experiência, por arrogância e orgulho; coisas que não são comumente aceitas, por deferência à opinião do vulgo. Em suma, inúmeras são as maneiras, e às vezes imperceptíveis, pelas quais os afetos colorem e contaminam o entendimento.

Francis Bacon, in Novum Organon

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A alma que procura

Publicado em Livros, Reflexão por usucapiao em Janeiro 27, 2009

Gabinete de Estudos

Estudante
Faz pouco aqui cheguei, e uso a ocasião
Para vos procurar. Tenho imenso prazer
De a homem como vós falar e conhecer,
A quem todos referem com alta devoção.

Mefistófeles
Agrada-me bastante a tua gentileza!
Sou homem como tantos: Olha! Com certeza
Começaste a estudar. Já tens um professor?

Estudante
Meu desejo é estudar, e o quero com fervor!
Procuro este local com coragem e virtude,
Tenho pouco dinheiro e ardente juventude.
Minha mãe relutou em deixar-me afastar,
Almejo com vigor aqui me aprofundar.

Mefistófeles
A escola que te serve achaste enfim agora.

Estudante (observando o recinto)
Para ser bem sincero almejo ir-me embora.
Estes muros antigos, ambiente abafado,
Em nada isto me agrada, estou desanimado.
O espaço é muito pouco, estreito, desencanta,
Não se vê um jardim, não há nenhuma planta,
Velhas colunas, bancos, completo desalento,
Aqui se embota o ouvido, a vista e o pensamento.

Mefistófeles
Isso depende mais de hábito, também.
Recém-nascido nos braços de sua mãe amua,
Recusa receber o leite que faz bem,
Mas logo com prazer o quer e se habitua;
Assim, também sucede em tetas da sapiência,
Há que sugá-las sempre e com maior veemência.

Estudante
Ao mestre enfim me apego a ter maior regalo,
Dizei, então, dizei: — como posso alcançá-lo?

Mefistófeles
Esclarece primeiro, antes de te afastar;
Das nossas faculdades, qual queres cursar?

Estudante
Pretendo aqui estudar com toda persistência,
Com gosto aprofundar-me em tudo que na terra
E no céu tem origem e real existência.
Ciência e natureza investigar de fato.

Mefistófeles
Enveredas assim pelo caminho exato,
É bom que não te percas com toda essa ciência.

Estudante
Entrego-me ao ofício com todo corpo e alma
Alegre ficaria, entanto, se com calma
Tivesse liberdade e alguma distração,
Nos belos feriados suaves do verão.

Mefistófeles
O tempo esvai-se logo e deves bem gozá-lo,
A ordem e a disciplina ensinam a utilizá-lo.
Aconselho-te, então meu caro amigo,
A primeiro estudar a lógica comigo,
Teu espírito estará por fim bem amestrado,
E em botas espanholas muitíssimas ajustadas
E assim já poderá deslizar, num momento,
Nas estradas suaves de todo pensamento.
Não andarás indeciso a torto e a direito,
Erradio, a vagar, sem o menor proveito.
Aqui te ensinarão, durante muitos dias,
O que de um golpe só comumente fazias,
Qual comer e beber com liberdade, várias
Vezes. Uma, duas, três! Quantas necessárias.
Na verdade isso ocorre em fábrica — pensante
Como do tecelão na máquina possante,
Onde um só pedal move mil filamentos,
Em que as pecinhas vibram em movimentos,
Invisíveis os fios deslizam com pujança,
O filósofo sábio investiga e avança,
Demonstra que no mundo está tudo na ordem:
O primeiro era assim, o segundo também,
Então o terceiro e quarto em seguida vêm.
Se o primeiro e segundo em ordem não se viam,
Terceiro e quarto então jamais se encontrariam.
Isso louvam estudantes em todos os rincões,
Mas nunca eles se tornam ao menos tecelões.
Quem quer investigar e a vida desvendar,
O espírito abandona em primeiro lugar,
E exibe nas suas mãos apenas a matéria.
Infelizmente falta aquela força etérea,
Encheiresin naturae a isso chama a química.
Zomba assim de si mesma a usar estranha mímica!

Estudante
Eu também não entendo o que estais a ensinar-me.

Mefistófeles
Mas na próxima vez, vindo aqui me procurar
Entenderás melhor! REDUZIR é iniciar.
Depois muito te empenha em bem CLASSIFICAR.

Estudante
Eu fico tão confuso ante essa explicação
Qual tivera no crânio uma mó em rotação.

Mefistófeles
Antes de outras ciências humanas desvendar
Deves a metafísica a fundo investigar!
Do mais íntimo da alma arrancar com pujança
O que o cérebro humano em si jamais alcança.
Quer entendas quer não, se a coisa é duvidosa,
Há sempre uma palavra a expressar grandiosa.
Aproveita com afinco o semestre de estudo,
Ordena com cuidado e disciplina tudo.
Cinco horas no dia, medidas na ampulheta.
Sê muito pontual aos toques da sineta!
Antes de ir à escola estuda bem a lição
E os pontos investiga, um a um, na ocasião,
Para que mais e mais progridas no saber.
Não digas nada além do que o livro disser.
Escreve com cuidado, esforço e todo encanto,
Qual se inspirado fosses no Espírito Santo!

Estudante
Não deveis repetir. Não há necessidade!
Sei o valor real de tudo o que ensinais,
Tendo o preto no branco, al não quero mais,
Posso trazê-lo a casa e ter tranqüilidade.

Mefistófeles
Não te almejo esse mal tão duro e tão execrado,
Bem sei como se estuda o direito em verdade.
Herdam-se eternamente as leis e seus direitos,
Como se fossem do povo eterna enfermidade,
Geração a geração se infiltram com mil jeitos,
Lentamente se vão de cidade a cidade.
Razão é contra-senso, o bem se torna injúria;
Pobre de ti se herdares de outros que hão vivido!
E quanto a esse direito atualmente surgido,
Que pena! Nem se fala! É tudo coisa espúria.

Estudante
Minha aversão cresceu com vosso ensinamento,
Feliz o que vos tem como mestre! Talento!
Talvez seja melhor cursar Teologia.

Mefistófeles
Não quero te levar para tal erronia.
O que essa ciência alcança e nos ensina,
Difícil é de evitar em seus falsos caminhos.
Contém tanto veneno escondido que mina!
Difícil é separar dos remédios daninhos.
Melhor que tudo isso é ouvir um só conselho;
Com teu mestre jurar! Fazê-lo o teu espelho!
Como norma geral às palavras te apega!
Entra assim pela porta aberta e bem trafega,
Até o templo santo onde há sabedoria.

Estudante
Mas à palavra a idéia há de ser companhia.

Mefistófeles
Muito bom! Não devemos assim ter tanto medo;
Pois onde falta a idéia, encontra-se um arremedo,
Aplica-se a palavra afinal muito bem.
Com palavras se luta e com heroicidade,
Com palavras se faz sistema que convém,
Em achaques, crê com tal facilidade,
A elas jota algum se rouba na verdade.

Estudante
Perdão, se vos molesto. A prosa não termina.
No entanto algo preciso ainda conhecer.
Que aconselheis então se estudar medicina?
Tereis uma palavra — incentivo a dizer?
Três anos passam logo, o tempo tudo arrasta.
Meu Deus! Essa seara ao certo é muito vasta.
Se tenho um bom conselho, um justo e reto aviso,
Sigo logo o caminho, ao que parece, idôneo.

Mefistófeles (de si para consigo)
Já cansei de falar austero e com siso,
Vou passar a expressar-me, agora, qual demônio.

Mefistófeles (falando alto)
Da medicina é fácil saber o conteúdo,
O que é grande e pequeno estudar neste mundo,
E deixar afinal que se resolva tudo
Como aprouver a Deus, altíssimo, profundo.
Na ciência se perde o homem por inteiro.
Cada qual só assimila um pouco se é capaz.
Aquele que desfruta o momento fugaz,
Esse é para mim um homem verdadeiro!
Ao certo foste feito em alguma perfeição
Coragem, destemor em ti se conciliam,
Se em ti tens confiança e fé, convicção,
Em ti todas as almas, enfim, também confiam.
Aprende sobretudo a lidar com mulheres,
Nelas já são normais achaques, azedumes,
Aos milhares verás ataques e queixumes,
Que podes dominar, depressa, se quiseres.
Com elas há de agir com ares de honradez,
Logo as terás nas mãos seguras de uma vez.
O título de médico inspira confiança
E tua arte abre as portas a outras artes mais;
Ao ser bem recebido atinges sem tardança
O que outros só alcançam em anos infernais.
Toma, como doutor, o pulso e bem manhoso
A esbelta silhueta espreita com maestria
E o laço do espartilho vê onde se esconde…

Estudante
Bravos! Nessa ciência existe um “como” e um “onde”!

Mefistófeles
Cinzenta, caro amigo, é toda teoria,
Verdejante e dourada é a árvore da vida!

Estudante
Eu vos juro, isto é sonho! Oh alma comovida!
Poderei procurar-vos, aqui, outra vez mais,
E a ciência estudar, tão alta, que ensinais?

Mefistófeles
Dentro nas minhas forças, ajudo paciente.

Estudante
Ao sair peço ainda ao ver tanta cultura:
Neste álbum pessoal, que tenho aqui presente,
Lançai alguma coisa e ponde a assinatura.

Mefistófeles
É muito natural! Não há nenhum favor!
(Escreve e devolve o álbum.)

Estudante (lê)
Eritis scuit Deus, scientes bonum et malum.
(Fecha o álbum de maneira respeitosa.)

Goethe, in Fausto

(não tive paciência de escrever o diálogo extamente como está na tradução da obra que possuo então copiei o texto como está no Projeto Goethe.)

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Intelecto, Expectativas, Juízos, Abstração

Publicado em Livros, Reflexão por usucapiao em Janeiro 9, 2009

Desde que a experiência me ensinou ser vão e fútil tudo o que costuma acontecer na vida cotidiana, e tendo eu visto que todas as coisas de que me arreceava ou que temia não continham em si nada de bom nem de mau senão enquanto o ânimo se deixava abalar por elas, resolvi, enfim, indagar se existia algo que fosse o bem verdadeiro e capaz de comunicar-se, e pelo qual unicamente, rejeitado tudo o mais, o ânimo fosse afe tado; mais ainda, se existia algo que, achado e adquirido, me desse para sempre o gozo de uma alegria contínua e suprema. Digo que resolvi enfim porque à primeira vista parecia insensato querer deixar uma coisa certa por outra então incerta. De fato, via as comodidades que se adquirem pela honra e pelas riquezas, e que precisava abster-me de procurá-las, se tencionasse empenhar-me seriamente nessa nova pesquisa. Verificava, assim, que se, por acaso, a suprema felicidade consistisse naquelas coisas, iria privar-me delas; se, porém, nelas não se encontrasse e só a elas me dedicasse, também careceria da mesma felicidade. Ponderava, portanto, interiormente se não seria possível chegar ao novo modo de vida, ou pelo menos à certeza a seu respeito, sem mudar a ordem e a conduta comum de minha existência, o que te ntei muitas vezes, mas em vão. Com efeito, as coisas que ocorrem mais na vida e são tidas pelos homens como o supremo bem resumem-se, ao que se pode depreender de suas obras, nestas três: as riquezas, as honras e a concupiscência. Por elas a mente se vê tão distraída que de modo algum poderá pensar em qualquer outro bem. Realmente, no que tange à concupiscência, o espírito fica por ela de tal maneira possuído como se repousasse num bem, tornando-se de todo impossibilitado de pensar em outra coisa; mas, após a sua fruição, segue-se a maior das tristezas, a qual, se não suspende a mente, pelo menos a perturba e a embota. Também procurando as honras e a riqueza, não pouco a mente se distrai, mormente quando são buscadas apenas por si mesmas, porque entã o serão tidas como o sumo bem. Pela honra, porém, muito mais ainda fica distraída a mente, pois sempre se supõe ser um bem por si e como que o fim último, ao qual tudo se dirige. Além do mais, nestas últimas coisas não aparece, como na concupiscência, o arrependimento. Pelo contrário, quanto mais qualquer delas se possuir, mais aumentará a alegria e consequentemente sempre mais somos incitados a aumentá-las. Se, porém, nos virmos frustrados alguma vez nessa esperança, surge uma extrema tristeza. Por último, a honra representa um grande impedimento pelo fato de precisarmos, para consegui-la, adaptar a nossa vida à opinião dos outros, a saber, fugindo do que os homens em geral fogem e buscando o que vulgarmente procuram.

Spinoza, Tratado Sobre a Correção do Intelecto

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