[ leituras, reflexões, dia-a-dia, e algo mais ]

Uma bela alma

Publicado em Reflexão por usucapiao em Março 9, 2009

“Fiz o rascunho de um desenho que representa uns mineiros indo para a mina, de manhã, na neve, por um caminho cercado por uma sebe de espinhos, sombras que passam vagamente discerníveis no crepúsculo. Ao fundo se confundem com o céu, as grandes construções das minas de carvão.”

julho 1880

“Meu caro Théo, É um pouco a contragosto que lhe escrevo, não o tendo feito há tanto tempo, e isto por muitos motivos. Até certo ponto você se tornou um estranho para mim, e eu talvez o seja para você mais do que você imagina; talvez fosse melhor para nós dois não continuarmos assim. É impossível que nem mesmo agora eu lhe tivesse escrito, não fosse o fato de eu me sentir na obrigação, na necessidade de lhe escrever; não fosse o fato de você mesmo me fazer sentir esta necessidade. Soube em Etten que você tinha me enviado cinqüenta francos. Pois bem, eu os aceitei. Certamente a contragosto, certamente com um sentimento bem melancólico, mas estou numa espécie de beco sem saída ou de atoleiro, como fazer de outro modo? E é portanto para agradecer que lhe escrevo. Como talvez você já saiba, voltei ao Borinage , meu pai me disse que seria melhor ficar pelas vizinhanças de Etten: eu disse que não e acredito ter agido melhor assim. Involuntariamente, tornei-me na família uma espécie de personagem impossível e suspeito, seja como for, alguém que não merece confiança. A quem poderia eu ser útil de alguma maneira? É por isto que antes de mais nada, sou levado a crer, seja vantajoso, e melhor resolução a tomar, e o mais razoável, que eu vá embora e me mantenha a uma distância conveniente, que eu faça como se não existisse. O que para os pássaros é a muda, a época em que trocam de plumagem, a adversidade ou o infortúnio, os tempos difíceis, são para nós, seres humanos. Podemos permanecer neste tempo de muda, podemos também deixá-lo como que renovados, mas de qualquer forma isso não se faz em público, é pouco divertido, e por isto convém eclipsar-se. Pois seja. Agora, por mais que reconquistar a confiança de toda uma família, talvez não totalmente desprovida de preconceitos e outras qualidades igualmente honoráveis e elegantes, seja de uma dificuldade mais ou menos desesperadora, eu ainda tenho algumas esperanças de que pouco a pouco, lenta e seguramente, a cordial compreensão seja restabelecida com uns e outros. Assim é que em primeiro lugar eu gostaria muito de ver esta cordial compreensão, para não dizer mais, restabelecida entre meu pai e eu, e desejaria muito que ela igualmente se restabelecesse entre nós dois. Compreensão cordial vale infinitamente mais que mal-entendido. Preciso agora lhe aborrecer com algumas coisas abstratas, no entanto gostaria muito que você as escutasse com paciência. Sou um homem de paixões, capaz de, e sujeito a fazer coisas mais ou menos insensatas, das quais às vezes me arrependo mais ou menos. Muitas vezes me ocorre falar ou agir um pouco depressa demais, quando seria melhor esperar com um pouco mais de paciência. Acredito que outras pessoas também possam às vezes cometer semelhantes imprudências. Agora, sendo assim, o que se deve fazer, devo considerar-me como um homem perigoso e incapaz de qualquer coisa? Penso que não. Mas trata-se de por todos os meios tirar destas paixões o melhor partido. Por exemplo, para falar de uma paixão entre outras, tenho uma paixão mais ou menos irresistível pelos livros e preciso me instruir continuamente, estudar, se você quiser, assim como preciso comer meu pão. Você poderá entender isto. Quando eu estava num ambiente de quadros e de coisas de arte, você sabe muito bem que fui tomado por uma paixão violenta, que chegava ao entusiasmo. E não me arrependo, e ainda agora, longe dele, muitas vezes sinto saudade do mundo dos quadros. Você talvez se lembre bem que eu sabia perfeitamente (e pode ser que ainda o saiba) o que era um Rembrandt, ou o que era um Millet, um Jules Dupré, um Delacroix, um Millais ou um Maris? Bom – agora não estou mais neste ambiente, no entanto esta coisa que se chama alma pretende-se que não morre jamais, e que vive sempre e busca sempre mais e mais e ainda mais. Em vez de sucumbir de saudades, eu disse: “O país ou a pátria estão em todos os lugares”. Em vez de me deixar levar pelo desespero, tomei o partido da melancolia ativa enquanto a tinha a potência de atividade, ou em outras palavras, preferi a melancolia que espera e que aspira e que busca, àquela que embota e, estagnada, desespera. Portanto, estudei mais ou menos seriamente os livros ao meu alcance, como a Bíblia e a Revolução Francesa de Michelet, e, no último inverno, Shakespeare e um pouco de Victor Hugo e Dickens, e Beecher Stowe e ultimamente Ésquilo e muitos outros, menos clássicos, vários grandes pequenos mestres. Você bem sabe que, entre os que se classificam como pequenos mestres encontram-se um Fabritius ou um Bida. Agora quem é absorvido por tudo isto às vezes é chocante, shocking para os outros, e sem querer peca mais ou menos contra os usos e formas e conveniências sociais. No entanto, é pena que se leve isto a mal. Por exemplo, você sabe que freqüentemente eu negligenciei meu asseio, eu o admito, e admito que isto seja shocking. Mas veja bem, a penúria e a miséria contribuíram de algum modo para isto, e depois às vezes este é um bom método para garantir a solidão necessária, para poder aprofundar mais ou menos este ou aquele estudo que nos preocupa. Um estudo muito necessário é o da medicina, não há um homem que não tenha desejado conhecê-la um mínimo que seja, que não tenha procurado saber pelo menos de que se trata e, veja, eu ainda não sei nada disto. Mas tudo isto me absorve, tudo isto me preocupa, tudo isto me faz sonhar, imaginar e pensar? Já fazem agora talvez cinco anos, não sei ao certo, que vivo mais ou menos sem lugar, errando aqui e ali. Agora vocês dizem desde tal ou qual época você caiu, você se apagou, você não fez mais nada. Será que isto é totalmente verdade? É verdade que ora ganhei meu pedaço de pão, ora ele me foi dado por bondade de um amigo; vivi como pude, nem bem nem mal, como dava; é verdade que perdi a confiança de muitos; é verdade que minha situação pecuniária está num triste estado; é verdade que o futuro me é bem sombrio; é verdade que eu poderia ter feito melhor; é verdade que meus próprios estudos estão num estado lamentável e desesperador, e que me falta mais, infinitamente mais do que o que eu tenho. Mas vocês chamam isso de cair, de não fazer nada? Talvez você diga: mas por que você não continuou como gostaríamos que continuasse, pelo caminho da universidade? Não responderei mais do que isso: é muito caro; e ademais este futuro não seria melhor do que o de agora, no caminho em que estou. Mas no caminho em que estou devo continuar – se eu não fizer nada, se não estudar, se não procurar mais, então estarei perdido. Então, ai de mim. Eis como eu vejo a coisa: continuar, continuar, isso é que é necessário. Mas qual é o seu objetivo definitivo?, você perguntará. Este objetivo torna-se mais definido, desenhar-se-á lenta e seguramente como o croquis que se torna esboço e o esboço que se torna quadro, à medida que se trabalhe mais seriamente, que se aprofunde mais a idéia, no início e vaga, o primeiro pensamento fugidio e passageiro, a menos que o fixemos. Você deve saber que entre os missionários acontece o mesmo que com os artistas. Há uma velha escola acadêmica muitas vezes execrável, tirânica, a abominação da desolação, enfim, homens que têm uma espécie de couraça, uma armadura de aço de preconceitos e convenções; estes, quando estão à testa dos negócios, dispõem dos cargos e, por meios indiretos, buscam manter seus protegidos e excluir os homens naturais. Seu Deus é como o deus do beberrão Falstaff de Shakespeare, “o interior de uma igreja”, “the inside of a church”; na verdade certos senhores missionários (???) se acham por uma estranha coincidência (e talvez eles próprios, se fossem capazes de alguma emoção humana, ficariam um pouco surpresos de aí se acharem) plantados no mesmo ponto de vista que o beberrão típico tem das coisas espirituais. Mas há pouco a temer que algum dia sua cegueira a este respeito se transforme em clarividência. Este estado de coisas tem seu lado ruim para quem não está de acordo com tudo isto, e que de toda sua alma, de todo coração, e com toda a indignação de que é capaz, protesta contra isto. Quanto a mim, respeito os acadêmicos que não são como estes; mas os respeitáveis são mais raros do que acreditaríamos à primeira vista. Agora, uma das causas pelas quais eu estou agora deslocado – e por que durante tantos anos estive deslocado – é simplesmente porque tenho idéias diferentes das desses senhores que dão cargos àqueles que pensam como eles. Não se trata de uma simples questão de asseio, como hipocritamente me censuraram, é uma questão mais séria que isto, posso lhe garantir. Por que lhe digo tudo isto? Não é para me queixar, não é para me desculpar naquilo em que eu possa ter mais ou menos errado, mas simplesmente para lhe dizer isto: Quando de sua última visita no verão passado, quando nós dois passávamos perto da caverna abandonada. que chama de “A Feiticeira”, você me lembrou que houve uma época em que também passeávamos os dois perto do velho canal e do moinho de Rijswick, “e então”, você me dizia, “nós estávamos de acordo sobre muitas coisas, mas”, você acrescentou, “desde então mudou muito, você já não é mais o mesmo”. Pois bem, isto não é bem assim; o que mudou, é que minha vida era então menos difícil, e meu futuro aparentemente menos sombrio; mas quanto ao meu íntimo, quanto à minha maneira de ver e de pensar, nada disto mudou, e se de fato houvesse alguma mudança, é que agora eu penso e acredito e amo mais serenamente aquilo que na época eu também já pensava, acreditava e amava. Seria portanto um mal-entendido se você persistisse em acreditar que, por exemplo, agora eu seria menos caloroso por Rembrandt ou Millet ou Delacroix ou quem ou o que quer que fosse, pois acontece justo o contrário, apenas, veja você, há várias coisas em que acreditar e amar, e há algo de Rembrandt em Shakespeare, e de Corrège em Michelet, e de Delacroix em Victor Hugo e ainda há algo de Rembrandt no Evagelho e algo do Evangelho em Rembrandt, como queira, isto dá mais ou menos na mesma, desde que se entenda a coisa como bom entendedor, sem querer desviá-la para o mau sentido e se levarmos em conta os termos da comparação, que não tem a pretensão de diminuir os méritos das personalidades originais. E em Bunyan há algo de Maris ou de Millet e em Beecher Stowe há algo de Ary Scheffer. Agora, se você pode perdoar um homem que se aprofunda nos quadros, admita também que o amor aos livros é sagrado quanto o amor a Rembrandt, e inclusive acredito que os dois se completam. Gosto muito do retrato de homem de Fabritius que certo dia, ao passearmos também os dois, contemplamos longamente no museu do Harlem. Bom, mas eu gosto da mesma forma de Richard Cartone, de Dickens em sua Paris e sua Londres de 1793, e eu poderia ainda lhe mostrar outras figuras estranhamente comoventes em outros livros, com semelhanças mais ou menos impressionantes. E acredito que Kent, um personagem do Rei Lear de Shakespeare, é tão nobre e distinto quanto uma figura de Th. De Keyser, embora Kent e Rei Lear tenham supostamente vivido muito tempo antes. Isto para não dizer mais nada. Meu Deus, como é belo Shakespeare. Quem é misterioso como ele? Sua palavra e sua maneira de fazer equivalem a um pincel fremente de febre e emoção. Mas é preciso aprender a ler, como é preciso aprender a ver e aprender a viver. Portanto, você não deve acreditar que eu renegue isto ou aquilo, sou uma espécie de fiel na minha infidelidade e, embora mudado, sou o mesmo e meu tormento não é mais do que este: no que eu poderia ser bom? Não poderia eu servir e ser útil de alguma maneira? Como poderia saber mais e aprofundar este ou aquele tema? Como você vê, isto me atormenta continuamente. Além disto, sinto-me como um prisioneiro do meu tormento, excluído de participar nesta ou naquela obra, e tendo estas ou aquelas coisas necessárias fora de meu alcance. Por isto sentimo-nos melancólicos, e sentimos grandes vazios ali onde poderiam existir amizades e elevadas e sérias afeições, e sentimos um terrível desânimo corroendo nossa própria energia moral, e a fatalidade parece poder colocar obstáculos aos instintos de afeição, e uma maré de desgosto nos invade. E então dizemos: até quando, meu Deus? O que você quer? O que se passa no íntimo revela-se exteriormente? Fulano tem uma grande chama queimando em sua alma, e ninguém jamais vem nela se esquentar, e os transeuntes só percebem um pouquinho de fumaça no alto da chaminé e seguem então seu caminho. E agora, o que fazer? Sustentar esta chama interior, ter substância em si mesmo, esperar pacientemente, e no entanto com quanta impaciência, esperar, dizia, a hora que alguém desejará aproximar-se – e ficar? Que sei eu? Quem quer que acredite em Deus, que espere a hora que cedo ou tarde chegará. Agora, no momento, ao que parece todos os meus negócios vão mal, e isto já está assim há um tempo bastante considerável, e assim pode ficar durante um futuro mais ou menos longo. Mas pode ser que, depois de tudo pareça ter dado errado, de repente tudo comece a melhorar. Não conto com isto, talvez isto nunca aconteça, mas no caso de acontecer alguma mudança para melhor, computaria isto como um ganho, ficaria contente, e diria: “Enfim, afinal havia alguma coisa”. Mas no entanto – você dirá – você é um ser execrável, já que tem idéias impossíveis sobre a religião, e escrúpulos de consciência pueris. Se os tenho impossíveis ou pueris, possa eu me livrar disto, é tudo o que peço. Mas veja mais ou menos o ponto em que me encontro. Você encontrará em O filósofo sob os tetos, de Souvester, como um homem do povo, um simples operário muito miserável que seja, se imaginava a pátria. “Você talvez jamais pensou no que é a pátria”, retomou ele pousando uma mão em meu ombro, “é tudo o que te envolve, tudo o que te criou e te alimentou, tudo que amaste, este campo que vês, estas casas, estas árvores, estas jovens que passam ali rindo, são a pátria. As leis que te protegem, o pão pago por teu trabalho, as palavras que tu trocas, a alegria e a tristeza provenientes das coisas ou dos homens entre os quais vives, são a pátria. O quartinho onde outrora viste tua mãe, as lembranças que ela te deixou, a terra em que ela repousa são a pátria. Tu a vês, tu a respiras em todos os lugares. Imagines os direitos e os deveres, as afeições e as necessidades, as lembranças e o reconhecimento, reúne tudo isso numa palavra será a pátria”. Ora, da mesma forma tudo o que é verdadeiramente bom e belo, de beleza interior moral, espiritual e sublime nos homens e em suas obras, acredito que vem de Deus, e tudo o que há de ruim e de mau nas obras dos homens e nos homens, não é de Deus, e Deus também não o acha bom. Mas involuntariamente sou levado a crer que a melhor maneira de conhecer Deus é amar muito. Ame tal amigo, tal pessoa, tal coisa, o que quiser, e você estará no bom caminho para depois saber mais, eis o que eu digo a mim mesmo. Mas é preciso amar com uma grande e séria simpatia íntima, com vontade, com inteligência, e é preciso sempre procurar saber mais, melhor e mais. Isto conduz a Deus, isto conduz à fé inabalável. Para citar um exemplo, alguém que ame Rembrandt, mas ame-o seriamente saberá que há um Deus, e Nele terá fé. Alguém que se aprofunde na história da Revolução Francesa – não será incrédulo, verá que também nas grandes coisas há uma potência soberana que se manifesta. Alguém que tenha assistido, mesmo que por pouco tempo, ao curso gratuito da grande universidade da miséria e que tenha prestado às coisas que seus próprios olhos vêem e que seus ouvidos percebem, e que tenha refletido sobre isto, também acabará por crer e talvez aprenda mais do que imagina. Procure entender a fundo o que dizem os grandes artistas, os verdadeiros artistas, em suas obras-primas, e encontrará Deus nelas. Um o terá dito ou escrito num livro, outro, num quadro. Depois, leia simplesmente a Bíblia e o Evangelho: isso dá o que pensar, muito em que pensar, tudo em que pensar. Pois bem, pense este muito, pense este tudo, isto eleva seu pensamento acima do nível ordinário, independente de você. Já que sabemos ler, leiamos então. Depois, às vezes pode-se até ficar um pouco abstraído, um pouco sonhador. Há quem fique abstraído demais, sonhador demais; talvez seja o que ocorre comigo, mas é minha culpa. Afinal, quem sabe, não havia motivo para isto. Estava abstraído, preocupado, inquieto por uma ou outra razão, mas a gente se refaz! O sonhador às vezes cai num poço, mas dizem que logo ele se reergue. E o homem abstraído, em compensação, por vezes também tem sua presença de espírito. Às vezes é um personagem que tem sua razão de ser por um ou outro motivo que não distinguimos à primeira vista, ou que, na maioria das vezes, esquecemos involuntariamente. Fulano, que andou agitado como se estivesse num mar tempestuoso, chega enfim ao seu destino: um outro que parecia não valer nada e ser incapaz de exercer qualquer função acaba por encontrar uma e, ativo e capaz de agir, mostra-se totalmente outro do que parecia à primeira vista. Escrevo-lhe um pouco ao acaso o que me vem à pena, ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo. Acaso haverá vagabundos e vagabundos que sejam diferentes? Há quem seja vagabundo por preguiça e fraqueza de caráter, pela indignidade de sua própria natureza: você pode, se achar justo, me tomar por um destes. Além deste, há um outro vagabundo, o vagabundo que é bom apesar de si, que intimamente é atormentado por um grande desejo de ação, que nada faz porque está impossibilitado de fazê-lo, porque está como que preso por alguma coisa, porque não tem o que lhe é necessário para ser produtivo, porque a fatalidade das circunstâncias o reduz a este ponto, um vagabundo assim nem sempre sabe por si próprio o que poderia fazer, mas por instinto, sente: “No entanto, eu sirvo para algo, sinto em mim uma razão de ser, sei que poderia ser um homem completamente diferente. No que é que eu poderia ser útil, para o que poderia eu servir; existe algo dentro de mim, o que será então?”. Este é um vagabundo completamente diferente; você pode, se achar justo, tomar-me por um destes. Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor. “Vejam que vagabundo”, diz um outro pássaro que passa, “esse aí é um tipo de aposentado”. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – “mas” dizem as crianças que o criam na gaiola, “afinal ele tem tudo o que precisa”. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. “Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis! Tenho tudo que preciso. Ah! Por bondade, liberdade! ser um pássaro como os outros.” Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo… E os homens ficam freqüentemente impossibilitados de fazer algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito horrível. Há também, eu sei, a libertação, a libertação tardia. Uma reputação arruinada com ou sem razão, a penúria, a fatalidade das circunstâncias, o infortúnio, fazem prisioneiros. Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros. Será tudo isto imaginação, fantasia? Não creio; e então nos perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade? Você sabe o que faz desaparecer a prisão. É toda afeição profunda, séria. Ser amigos, ser irmãos, amar isto abre a porta da prisão por poder soberano, como um encanto muito poderoso. Mas aquele que não tem isto permanece na morte. Mas onde renasce a simpatia, renasce a vida. Além disso, às vezes a prisão se chama preconceito, mal-entendido, ignorância, falta disto ou daquilo, desconfiança, falsa vergonha. Mas para falar de outra coisa, se eu caí, por outro lado você subiu. E se eu perdi simpatias, você por seu lado as ganhou. Eis o que me deixa contente; falo sério e isto sempre me alegrará. Se você fosse pouco sério e pouco profundo, eu poderia temer que isso não durasse muito, mas como acredito que você seja muito sério e muito profundo, sou levado a crer que isto durará. Só que se lhe fosse possível ver em mim algo mais que um vagabundo da pior espécie eu ficaria muito contente. Então se eu puder alguma vez fazer algo por você, ser-lhe útil em alguma coisa, saiba que estou à sua disposição. Se aceitei o que você me deu, você também poderia, caso de alguma forma eu puder ajudá-lo, pedir-me: eu ficaria contente e consideraria isso uma prova de confiança. Nós estamos muito distantes um do outro e podemos ter pontos de vista diferentes; contudo, em dado momento, algum dia, poderíamos ajudar-nos um ao outro. Por hoje eu lhe aperto a mão, agradecendo novamente a bondade que você teve comigo. Agora, se mais cedo ou mais tarde você quiser me escrever, meu endereço é chez Ch. Decrucq, rue du Pavillon 8, em Cuesmes, perto de Mons. E saiba que escrevendo-me você me fará bem. Do seu, Vincent

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Carta de Aprendizado

Publicado em Livros por usucapiao em Fevereiro 25, 2009

Longa é a arte, breve a vida, difícil o juízo, fugaz a ocasião. Agir é fácil, difícil é pensar. Incômodo é agir de acordo com o pensamento. Todo começo é claro, os umbrais são o lugar da esperança. O jovem se assombra, a impressão o determina, ele aprende brincando, o sério o surpreende. A imitação nos é inata, mas o que se deve imitar não é fácil de reconhecer. Raras as vezes onde se encontra o excelente, mais raro ainda apreciá-lo. Atraem-nos a altura, não os degraus; com os olhos fixos no pico caminhamos de bom grado pela planície. Só uma parte da arte pode ser ensinada, e o artista a necessita por inteiro. Quem a conhece pela metade engana-se sempre e fala muito; quem a possui por inteiro, só pode agir, fala pouco ou tardiamente. Aqueles não têm segredos nem força; seu ensinamento é como pão cozido, que tem sabor e a sacia por um dia apenas; mas não se pode semear a farinha, e as sementes não devem ser  moídas. As palavras são boas, mas não são o melhor. O melhor não se manifesta pelas palavras. O espírito, pelo qual agimos, é o que há de mais elevado. Só o espírito compreende e representa a ação. Ninguém sabe o que ele faz quando age com justiça; mas do injusto temos sempre consciência. Quem só atua por símbolos é um pedante, um hipócrita ou um embusteiro. Estes são numerosos e se sentem bem juntos. Sua verborragia afasta o discípulo e sua pertinaz mediocridade inquieta os melhores. O ensinamento do verdadeiro artista abre o espírito, pois onde faltam as palavras, fala a ação. O verdadeiro discípulo aprende a desenvolver do conhecido o desconhecido e aproxima-se do mestre.
Goethe, in “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister”

Tempestades

Publicado em Livros, Reflexão por usucapiao em Fevereiro 20, 2009

Pássaro e o homem tem essências diferentes. O homem vive à sombra de leis e tradições por ele inventadas; o pássaro vive segundo a lei universal que faz girar os mundos. Acreditar é uma coisa; viver conforme o que se acredita é outra. Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos. Muitos levantam a cabeça acima dos montes; mas sua alma jaz nas trevas das cavernas. A civilização é uma arvore idosa e carcomida, cujas flores são a cobiça e o engano e cujas frutas são a infelicidade e o desassossego. Deus criou os corpos para serem os templos das almas. Devemos cuidar desses templos para que sejam dignos da divindade que neles mora. Procurei a solidão para fugir dos homens, de suas leis, de suas tradições e de seu barulho. Os endinheirados pensam que o sol e a lua e as estrelas se levantam dos seus cofres e se deitam nos seus bolsos. Os políticos enchem os olhos dos povos com poeira dourada e seus ouvidos com falsas promessas. Os sacerdotes aconselham os outros, mas não aconselham a si mesmos, e exigem dos outros o que não exigem de si mesmos. Vã é a civilização. E tudo o que está nela é vão. As descobertas e invenções nada são senão brinquedos com a mente se diverte no seu tédio. Cortar as distâncias, nivelar as montanhas, vencer os mares, tudo isso não passa de aparências enganadoras, que não alimentam ocoração e nem elevam a alma. Quanto a esses quebra-cabeças, chamados ciências e artes, nada são senão cadeias douradas com os quais o homem se acorrenta, deslumbrados com seu brilho e tilintar. São os fios da tela que o homem tece desde o inicio do tempo sem saber que, quando terminar sua obra, terá construído a prisão dentro da qual ficará preso. Uma coisa só merece nosso amor e nossa dedicação, uma coisa só… É o despertar de algo no fundo dos fundos da alma. Quem o sente não o pode expressar em palavras. E quem não o sente, não poderá nunca conhecê-lo através de palavras. Faço votos para que aprendas a amar as tempestades em vez de fugir delas.

Gibran Khalil Gibran, in “O Profeta”

Em busca de harmonia

Publicado em Livros, Reflexão por usucapiao em Fevereiro 16, 2009

Aquele que nasceu com talento para algum talento, nele encontra sua mais bela existência! Não existe coisa alguma nesta terra sem dificuldade! Só o impulso interior, o amor e o desejo nos ajudam a superar os obstáculos, a abrir caminhos e a elevar-nos acima do estreito círculo onde outros miseravelmente se debatem! [...] Não sentes esse todo arder coeso, que só o espírito descobre, concebe e realiza; não sentes que lateja nos homens uma centelha melhor que, não encontrando alento nem ânimo, é soterrada pelas cinzas das necessidades quotidianas e da indiferença, e, ainda assim, por mais tarde que seja, nunca é abafada. Não sentes em tua alma força alguma para avivá-la, nem em teu coração a riqueza necessária para alimentar aquilo que despertaste. [...] e não há também homens que, privados de tal forma do sentimento da vida, chegam a considerar toda a vida e a própria natureza dos mortais um nada, uma existência atormentada, semelhante ao pó?

Goethe, in Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister (Editora 34,Primeira Ediçãp, p. 68-69)

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O caminho do conhecimento e suas distrações

Publicado em Livros, Reflexão por usucapiao em Fevereiro 5, 2009

A compreensão humana não é um exame desinteressado, mas recebe infusões da vontade e dos afetos; disso se originam ciências que podem ser chamadas “ciências conforme a nossa vontade”. Pois um homem acredita mais facilmente no que gostaria que fosse verdade. Assim, ele rejeita coisas difíceis pela impaciência de pesquisar; coisas sensatas, porque diminuem a esperança; as coisas mais profundas da natureza, por superstição; a luz da experiência, por arrogância e orgulho; coisas que não são comumente aceitas, por deferência à opinião do vulgo. Em suma, inúmeras são as maneiras, e às vezes imperceptíveis, pelas quais os afetos colorem e contaminam o entendimento.

Francis Bacon, in Novum Organon

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Como vejo o mundo

Publicado em Livros, Reflexão por usucapiao em Fevereiro 1, 2009

Minha condição humana me fascina. Conheço o limite de minha existência e ignoro por que estou nesta terra, mas às vezes o pressinto. Pela experiência cotidiana, concreta e intuitiva, eu me descubro vivo para alguns homens, porque o sorriso e a felicidade deles me condicionam inteiramente, mas ainda para outros que, por acaso, descobri terem emoções semelhantes às minhas.
E cada dia, milhares de vezes, sinto minha vida — corpo e alma — integralmente tributária do trabalho dos vivos e dos mortos. Gostaria de dar tanto quanto recebo e não paro de receber. Mas depois experimento o sentimento satisfeito de minha solidão e quase demonstro má consciência ao exigir ainda alguma coisa de outrem. Vejo os homens se diferenciarem pelas classes sociais e sei que nada as justifica a não ser pela violência. Sonho ser acessível e desejável para todos uma vida simples e natural, de corpo e de espírito.
Recuso-me a crer na liberdade e neste conceito filosófico. Eu não sou livre, e sim às vezes constrangido por pressões estranhas a mim, outras vezes por convicções íntimas. Ainda jovem, fiquei impressionado pela máxima de Schopenhauer: “O homem pode, é certo, fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”; e hoje, diante do espetáculo aterrador das injustiças humanas, esta moral me tranquiliza e me educa. Aprendo a tolerar aquilo que me faz sofrer. Suporto então melhor meu sentimento de responsabilidade. Ele já não me esmaga e deixo de me levar, a mim ou aos outros, a sério demais. Vejo então o mundo com bom humor. Não posso me preocupar com o sentido ou a finalidade de minha existência, nem da dos outros, porque, do ponto de vista estritamente objetivo, é absurdo. E no entanto, como homem, alguns ideais dirigem minhas ações e orientam meus juízos. Porque jamais considerei o prazer e a felicidade como um fim em si e deixo este tipo de satisfação aos indivíduos reduzidos a instintos de grupo.
Em compensação, foram ideais que suscitaram meus esforços e me permitiram viver. Chamam-se o bem, a beleza, a verdade. Se não me identifico com outras sensibilidades semelhantes à minha e se não me obstino incansavelmente em perseguir este ideal eternamente inacessível na arte e na ciência, a vida perde todo o sentido para mim. Ora, a humanidade se apaixona por finalidades irrisórias que têm por nome a riqueza, a glória, o luxo. Desde moço já as desprezava. Tenho forte amor pela justiça, pelo compromisso social. Mas com muita dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não lhes sinto a falta porque sou profundamente um solitário. Sinto-me realmente ligado ao Estado, à pátria, a meus amigos, a minha família no sentido completo do termo. Mas meu coração experimenta, diante desses laços, curioso sentimento de estranheza, de afastamento e a idade vem acentuando ainda mais essa distância. Conheço com  lucidez e sem prevenção as fronteiras da comunicação e da harmonia entre mim e os outros homens.
Com isso perdi algo da ingenuidade ou da inocência, mas ganhei minha independência. Já não mais firmo uma opinião, um hábito ou um julgamento sobre outra pessoa. Testei o homem. É inconsistente.

Albert Einstein, in “Como Vejo O Mundo”

A alma que procura

Publicado em Livros, Reflexão por usucapiao em Janeiro 27, 2009

Gabinete de Estudos

Estudante
Faz pouco aqui cheguei, e uso a ocasião
Para vos procurar. Tenho imenso prazer
De a homem como vós falar e conhecer,
A quem todos referem com alta devoção.

Mefistófeles
Agrada-me bastante a tua gentileza!
Sou homem como tantos: Olha! Com certeza
Começaste a estudar. Já tens um professor?

Estudante
Meu desejo é estudar, e o quero com fervor!
Procuro este local com coragem e virtude,
Tenho pouco dinheiro e ardente juventude.
Minha mãe relutou em deixar-me afastar,
Almejo com vigor aqui me aprofundar.

Mefistófeles
A escola que te serve achaste enfim agora.

Estudante (observando o recinto)
Para ser bem sincero almejo ir-me embora.
Estes muros antigos, ambiente abafado,
Em nada isto me agrada, estou desanimado.
O espaço é muito pouco, estreito, desencanta,
Não se vê um jardim, não há nenhuma planta,
Velhas colunas, bancos, completo desalento,
Aqui se embota o ouvido, a vista e o pensamento.

Mefistófeles
Isso depende mais de hábito, também.
Recém-nascido nos braços de sua mãe amua,
Recusa receber o leite que faz bem,
Mas logo com prazer o quer e se habitua;
Assim, também sucede em tetas da sapiência,
Há que sugá-las sempre e com maior veemência.

Estudante
Ao mestre enfim me apego a ter maior regalo,
Dizei, então, dizei: — como posso alcançá-lo?

Mefistófeles
Esclarece primeiro, antes de te afastar;
Das nossas faculdades, qual queres cursar?

Estudante
Pretendo aqui estudar com toda persistência,
Com gosto aprofundar-me em tudo que na terra
E no céu tem origem e real existência.
Ciência e natureza investigar de fato.

Mefistófeles
Enveredas assim pelo caminho exato,
É bom que não te percas com toda essa ciência.

Estudante
Entrego-me ao ofício com todo corpo e alma
Alegre ficaria, entanto, se com calma
Tivesse liberdade e alguma distração,
Nos belos feriados suaves do verão.

Mefistófeles
O tempo esvai-se logo e deves bem gozá-lo,
A ordem e a disciplina ensinam a utilizá-lo.
Aconselho-te, então meu caro amigo,
A primeiro estudar a lógica comigo,
Teu espírito estará por fim bem amestrado,
E em botas espanholas muitíssimas ajustadas
E assim já poderá deslizar, num momento,
Nas estradas suaves de todo pensamento.
Não andarás indeciso a torto e a direito,
Erradio, a vagar, sem o menor proveito.
Aqui te ensinarão, durante muitos dias,
O que de um golpe só comumente fazias,
Qual comer e beber com liberdade, várias
Vezes. Uma, duas, três! Quantas necessárias.
Na verdade isso ocorre em fábrica — pensante
Como do tecelão na máquina possante,
Onde um só pedal move mil filamentos,
Em que as pecinhas vibram em movimentos,
Invisíveis os fios deslizam com pujança,
O filósofo sábio investiga e avança,
Demonstra que no mundo está tudo na ordem:
O primeiro era assim, o segundo também,
Então o terceiro e quarto em seguida vêm.
Se o primeiro e segundo em ordem não se viam,
Terceiro e quarto então jamais se encontrariam.
Isso louvam estudantes em todos os rincões,
Mas nunca eles se tornam ao menos tecelões.
Quem quer investigar e a vida desvendar,
O espírito abandona em primeiro lugar,
E exibe nas suas mãos apenas a matéria.
Infelizmente falta aquela força etérea,
Encheiresin naturae a isso chama a química.
Zomba assim de si mesma a usar estranha mímica!

Estudante
Eu também não entendo o que estais a ensinar-me.

Mefistófeles
Mas na próxima vez, vindo aqui me procurar
Entenderás melhor! REDUZIR é iniciar.
Depois muito te empenha em bem CLASSIFICAR.

Estudante
Eu fico tão confuso ante essa explicação
Qual tivera no crânio uma mó em rotação.

Mefistófeles
Antes de outras ciências humanas desvendar
Deves a metafísica a fundo investigar!
Do mais íntimo da alma arrancar com pujança
O que o cérebro humano em si jamais alcança.
Quer entendas quer não, se a coisa é duvidosa,
Há sempre uma palavra a expressar grandiosa.
Aproveita com afinco o semestre de estudo,
Ordena com cuidado e disciplina tudo.
Cinco horas no dia, medidas na ampulheta.
Sê muito pontual aos toques da sineta!
Antes de ir à escola estuda bem a lição
E os pontos investiga, um a um, na ocasião,
Para que mais e mais progridas no saber.
Não digas nada além do que o livro disser.
Escreve com cuidado, esforço e todo encanto,
Qual se inspirado fosses no Espírito Santo!

Estudante
Não deveis repetir. Não há necessidade!
Sei o valor real de tudo o que ensinais,
Tendo o preto no branco, al não quero mais,
Posso trazê-lo a casa e ter tranqüilidade.

Mefistófeles
Não te almejo esse mal tão duro e tão execrado,
Bem sei como se estuda o direito em verdade.
Herdam-se eternamente as leis e seus direitos,
Como se fossem do povo eterna enfermidade,
Geração a geração se infiltram com mil jeitos,
Lentamente se vão de cidade a cidade.
Razão é contra-senso, o bem se torna injúria;
Pobre de ti se herdares de outros que hão vivido!
E quanto a esse direito atualmente surgido,
Que pena! Nem se fala! É tudo coisa espúria.

Estudante
Minha aversão cresceu com vosso ensinamento,
Feliz o que vos tem como mestre! Talento!
Talvez seja melhor cursar Teologia.

Mefistófeles
Não quero te levar para tal erronia.
O que essa ciência alcança e nos ensina,
Difícil é de evitar em seus falsos caminhos.
Contém tanto veneno escondido que mina!
Difícil é separar dos remédios daninhos.
Melhor que tudo isso é ouvir um só conselho;
Com teu mestre jurar! Fazê-lo o teu espelho!
Como norma geral às palavras te apega!
Entra assim pela porta aberta e bem trafega,
Até o templo santo onde há sabedoria.

Estudante
Mas à palavra a idéia há de ser companhia.

Mefistófeles
Muito bom! Não devemos assim ter tanto medo;
Pois onde falta a idéia, encontra-se um arremedo,
Aplica-se a palavra afinal muito bem.
Com palavras se luta e com heroicidade,
Com palavras se faz sistema que convém,
Em achaques, crê com tal facilidade,
A elas jota algum se rouba na verdade.

Estudante
Perdão, se vos molesto. A prosa não termina.
No entanto algo preciso ainda conhecer.
Que aconselheis então se estudar medicina?
Tereis uma palavra — incentivo a dizer?
Três anos passam logo, o tempo tudo arrasta.
Meu Deus! Essa seara ao certo é muito vasta.
Se tenho um bom conselho, um justo e reto aviso,
Sigo logo o caminho, ao que parece, idôneo.

Mefistófeles (de si para consigo)
Já cansei de falar austero e com siso,
Vou passar a expressar-me, agora, qual demônio.

Mefistófeles (falando alto)
Da medicina é fácil saber o conteúdo,
O que é grande e pequeno estudar neste mundo,
E deixar afinal que se resolva tudo
Como aprouver a Deus, altíssimo, profundo.
Na ciência se perde o homem por inteiro.
Cada qual só assimila um pouco se é capaz.
Aquele que desfruta o momento fugaz,
Esse é para mim um homem verdadeiro!
Ao certo foste feito em alguma perfeição
Coragem, destemor em ti se conciliam,
Se em ti tens confiança e fé, convicção,
Em ti todas as almas, enfim, também confiam.
Aprende sobretudo a lidar com mulheres,
Nelas já são normais achaques, azedumes,
Aos milhares verás ataques e queixumes,
Que podes dominar, depressa, se quiseres.
Com elas há de agir com ares de honradez,
Logo as terás nas mãos seguras de uma vez.
O título de médico inspira confiança
E tua arte abre as portas a outras artes mais;
Ao ser bem recebido atinges sem tardança
O que outros só alcançam em anos infernais.
Toma, como doutor, o pulso e bem manhoso
A esbelta silhueta espreita com maestria
E o laço do espartilho vê onde se esconde…

Estudante
Bravos! Nessa ciência existe um “como” e um “onde”!

Mefistófeles
Cinzenta, caro amigo, é toda teoria,
Verdejante e dourada é a árvore da vida!

Estudante
Eu vos juro, isto é sonho! Oh alma comovida!
Poderei procurar-vos, aqui, outra vez mais,
E a ciência estudar, tão alta, que ensinais?

Mefistófeles
Dentro nas minhas forças, ajudo paciente.

Estudante
Ao sair peço ainda ao ver tanta cultura:
Neste álbum pessoal, que tenho aqui presente,
Lançai alguma coisa e ponde a assinatura.

Mefistófeles
É muito natural! Não há nenhum favor!
(Escreve e devolve o álbum.)

Estudante (lê)
Eritis scuit Deus, scientes bonum et malum.
(Fecha o álbum de maneira respeitosa.)

Goethe, in Fausto

(não tive paciência de escrever o diálogo extamente como está na tradução da obra que possuo então copiei o texto como está no Projeto Goethe.)

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A visão sobre uma forma de levar a vida

Publicado em Livros, Reflexão por usucapiao em Janeiro 9, 2009

A vida humana não passa de um sonho. Mais de uma pessoa já pensou isso. Pois essa impressão também me acompanha por toda parte. Quando vejo os estreitos limites onde se acham encerradas as faculdades ativas e investigadoras do homem, e como todo o nosso labor visa apenas a satisfazer nossas necessidades, as quais, por sua vez, não tem outro objetivo senão prolongar nossa mesquinha existencia; quando verifico que o nosso espírito só pode encontrar tranqüilidade, quanto a certos pontos das nossas pesquisas, por meio de uma resignação povoada de sonhos, como um presidiário que adornasse de figuras multicoloridas e luminosas perspectivas as paredes da sua célula … tudo isso, Wahlheim, me faz emudecer. Concentro-me e encontro um mundo em mim mesmo! Mas, também aí, é um mundo de pressentimentos e desejos obscuros e não de imagens nítidas e forças vivas. Tudo flutua vagamente nos meus sentidos, e assim, sorrindo e sonhando, prossigo na minha viagem através do mundo.

As crianças – todos os pedagogos eruditos estão de acordo a este respeito – não sabem a razão daquilo que desejam; também os adultos. da mesma forma que as crianças, caminham vacilantes e ao acaso sobre a terra, ignorando, tanto quanto elas, de onde vem e para onde vão. Não avançam nunca segundo uma orientação segura; deixam-se governar, como as crianças, por meio de biscoitos, pedaços de bolo e vara. E, como agem por essa forma, inconscientemente, parece-me, portanto, que se acham subordinados à vida dos sentidos.

Concordo com você (porque já sei que você vai contraditar-me) que os mais felizes são precisamente aqueles que vivem, dia a dia, como as crianças, passeando, despindo e vestindo as suas bonecas; aqueles que rondam, respeitosos, em torno da gaveta onde a mamãe guardou os bombons, e, quando conseguem agarrar, enfim, as gulodices cobiçadas, devoram-nas com sofreguidão e gritam: “Quero mais!” Eis a gente feliz! Também é ditosa a gente que, emprestando nomes pomposos às suas mesquinhas ocupações, e até às suas paixões, conseguem fazê-las passar por gigantescos empreendimentos destinados à salvação e prosperidade do genero humano.. Tanto melhor para os que são assim!. . . Mas aquele, que humildemente reconhece o resultado final de todas as coisas, vendo de um lado como o burgues facilmente arranja o seu pequeno jardim e dele faz um paraíso, e, de outro, como o miserável, arfando sob o seu fardo, segue o seu caminho sem revoltar-se, mas aspirando todos, do mesmo modo, a enxergar ainda por um minuto a luz do sol. . . sim, quem isso observa a margem permanece tranqüilo. Também este se representa a seu modo um universo que tira de si mesmo, e também é feliz porque é homem. E, assim, quaisquer que sejam os obstáculos que entravem seus passos, guarda sempre no coração o doce sentimento de que é livre e poderá, quando quiser, sair da sua prisão.

Os Sofrimentos do Jovem Werther, Goethe

Intelecto, Expectativas, Juízos, Abstração

Publicado em Livros, Reflexão por usucapiao em Janeiro 9, 2009

Desde que a experiência me ensinou ser vão e fútil tudo o que costuma acontecer na vida cotidiana, e tendo eu visto que todas as coisas de que me arreceava ou que temia não continham em si nada de bom nem de mau senão enquanto o ânimo se deixava abalar por elas, resolvi, enfim, indagar se existia algo que fosse o bem verdadeiro e capaz de comunicar-se, e pelo qual unicamente, rejeitado tudo o mais, o ânimo fosse afe tado; mais ainda, se existia algo que, achado e adquirido, me desse para sempre o gozo de uma alegria contínua e suprema. Digo que resolvi enfim porque à primeira vista parecia insensato querer deixar uma coisa certa por outra então incerta. De fato, via as comodidades que se adquirem pela honra e pelas riquezas, e que precisava abster-me de procurá-las, se tencionasse empenhar-me seriamente nessa nova pesquisa. Verificava, assim, que se, por acaso, a suprema felicidade consistisse naquelas coisas, iria privar-me delas; se, porém, nelas não se encontrasse e só a elas me dedicasse, também careceria da mesma felicidade. Ponderava, portanto, interiormente se não seria possível chegar ao novo modo de vida, ou pelo menos à certeza a seu respeito, sem mudar a ordem e a conduta comum de minha existência, o que te ntei muitas vezes, mas em vão. Com efeito, as coisas que ocorrem mais na vida e são tidas pelos homens como o supremo bem resumem-se, ao que se pode depreender de suas obras, nestas três: as riquezas, as honras e a concupiscência. Por elas a mente se vê tão distraída que de modo algum poderá pensar em qualquer outro bem. Realmente, no que tange à concupiscência, o espírito fica por ela de tal maneira possuído como se repousasse num bem, tornando-se de todo impossibilitado de pensar em outra coisa; mas, após a sua fruição, segue-se a maior das tristezas, a qual, se não suspende a mente, pelo menos a perturba e a embota. Também procurando as honras e a riqueza, não pouco a mente se distrai, mormente quando são buscadas apenas por si mesmas, porque entã o serão tidas como o sumo bem. Pela honra, porém, muito mais ainda fica distraída a mente, pois sempre se supõe ser um bem por si e como que o fim último, ao qual tudo se dirige. Além do mais, nestas últimas coisas não aparece, como na concupiscência, o arrependimento. Pelo contrário, quanto mais qualquer delas se possuir, mais aumentará a alegria e consequentemente sempre mais somos incitados a aumentá-las. Se, porém, nos virmos frustrados alguma vez nessa esperança, surge uma extrema tristeza. Por último, a honra representa um grande impedimento pelo fato de precisarmos, para consegui-la, adaptar a nossa vida à opinião dos outros, a saber, fugindo do que os homens em geral fogem e buscando o que vulgarmente procuram.

Spinoza, Tratado Sobre a Correção do Intelecto

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