[...] Trazeis convosco de bem doces dias
A saudosa lembrança. Sombras caras
Ressurgem numerosas; qual remota
Tradição vão volvendo
Primeiro amor, antigas amizades;
A memória cruel com dor recorda
A marcha errante que seguiu a vida,
E nobres peitos lembra, que, frustrados
Pela sorte de dias deleitosos,
Antes de mim a marcha terminaram
Meus derradeiros cantos não escutam
Aqueles para quem cantei primeiro;
Dispersa jaz essa falange amiga,
E mudos, ai! os ecos despertados
Nesse tempo feliz. Minhas endeixas
Por entre turba incógnitca ressoam,
De quem o louvor mesmo me entristece;
Espalhados, errantes são no mundo
Os que meu canto amavam inda vivem.
Saudade, a que já estava desfeito,
Daqueles nobres, plácidos espíritos,
De mim se apossa, e qual eólia lira
Só vagos cantos o meu estro entoa;
Estremeço, de lágrimas banhado
Comovido se sente o peito austero;
Como que foge o que possuo agora,
Em presente o passado eis se converte
Goethe, in Fausto
Em busca de harmonia
Aquele que nasceu com talento para algum talento, nele encontra sua mais bela existência! Não existe coisa alguma nesta terra sem dificuldade! Só o impulso interior, o amor e o desejo nos ajudam a superar os obstáculos, a abrir caminhos e a elevar-nos acima do estreito círculo onde outros miseravelmente se debatem! [...] Não sentes esse todo arder coeso, que só o espírito descobre, concebe e realiza; não sentes que lateja nos homens uma centelha melhor que, não encontrando alento nem ânimo, é soterrada pelas cinzas das necessidades quotidianas e da indiferença, e, ainda assim, por mais tarde que seja, nunca é abafada. Não sentes em tua alma força alguma para avivá-la, nem em teu coração a riqueza necessária para alimentar aquilo que despertaste. [...] e não há também homens que, privados de tal forma do sentimento da vida, chegam a considerar toda a vida e a própria natureza dos mortais um nada, uma existência atormentada, semelhante ao pó?
Goethe, in Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister (Editora 34,Primeira Ediçãp, p. 68-69)






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