[ leituras, reflexões, dia-a-dia, e algo mais ]

Entrada no domínio da luta

Posted in Livros, Reflexão by usucapiao on 19 de dezembro de 2010

Mas, na verdade, nada pode impedir o retorno, cada vez mais frequente, desses momentos em que a solidão absoluta, a sensação de vazio universal e o pressentimento de que a existência se aproxima de um desastre doloroso e definitivo se unem para mergulha-lo num estado de sofrimento real […] Debaixo dos nossos olhos, o mundo se uniformiza; os meios de comunicação avançam; o interior dos apartamentos se enriquece de novos equipamentos. As relações humanas tornam-se progressivamente impossíveis, o que reduz, na mesma proporção, a quantidade de peripércias de que se compõe uma vida. E aos poucos, o rosto da morte aparece, em todo o seu esplendor. O terceiro milênio mostra a sua cara […] Parece inverossímil que uma vida humana se reduza a tão pouco. A gente imagina, apesar de tudo, que algo, cedo ou tarde, acontecerá. Profundo engano. Uma vida pode ser muito bem, ao mesmo tempo, vazia e curta. Os dias passam pobres, sem deixar rastros nem lembranças; depois, de um golpe, acabam […] O tédio prolongado não é uma posição sustentável. Transforma-se, cedo ou tarde, em percepções nitidamente mais dolorosas, de uma dor positiva.

Michel Houellebecq, in Extensão do Domínio da Luta

Luminosidade

Posted in Livros, Reflexão by usucapiao on 15 de fevereiro de 2009

[…] Então, por um instante, tive a mais tremenda sensação de pena dos seres humanos, sejam eles o que forem, o rosto, a boca cheia de dor, personalidades, tentativas de ser alegres, pequenas petulâncias, sensação de perda, piadinhas chatas e vazias que logo seriam esquecidas: ah, para quê? […] Subi a colina aos tropeções, cumprimentado pelos passarinhos, e olhei para as figuras dormentes e acotoveladas no chão. Quem seriam todos esses fantasmas estranhos enraizados a essa tola aventurazinha na terra junto comigo?

Jack Kerouac, in Vagabundos Iluminados

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O caminho do conhecimento e suas distrações

Posted in Livros, Reflexão by usucapiao on 5 de fevereiro de 2009

A compreensão humana não é um exame desinteressado, mas recebe infusões da vontade e dos afetos; disso se originam ciências que podem ser chamadas “ciências conforme a nossa vontade”. Pois um homem acredita mais facilmente no que gostaria que fosse verdade. Assim, ele rejeita coisas difíceis pela impaciência de pesquisar; coisas sensatas, porque diminuem a esperança; as coisas mais profundas da natureza, por superstição; a luz da experiência, por arrogância e orgulho; coisas que não são comumente aceitas, por deferência à opinião do vulgo. Em suma, inúmeras são as maneiras, e às vezes imperceptíveis, pelas quais os afetos colorem e contaminam o entendimento.

Francis Bacon, in Novum Organon

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Como vejo o mundo

Posted in Livros, Reflexão by usucapiao on 1 de fevereiro de 2009

Minha condição humana me fascina. Conheço o limite de minha existência e ignoro por que estou nesta terra, mas às vezes o pressinto. Pela experiência cotidiana, concreta e intuitiva, eu me descubro vivo para alguns homens, porque o sorriso e a felicidade deles me condicionam inteiramente, mas ainda para outros que, por acaso, descobri terem emoções semelhantes às minhas.
E cada dia, milhares de vezes, sinto minha vida — corpo e alma — integralmente tributária do trabalho dos vivos e dos mortos. Gostaria de dar tanto quanto recebo e não paro de receber. Mas depois experimento o sentimento satisfeito de minha solidão e quase demonstro má consciência ao exigir ainda alguma coisa de outrem. Vejo os homens se diferenciarem pelas classes sociais e sei que nada as justifica a não ser pela violência. Sonho ser acessível e desejável para todos uma vida simples e natural, de corpo e de espírito.
Recuso-me a crer na liberdade e neste conceito filosófico. Eu não sou livre, e sim às vezes constrangido por pressões estranhas a mim, outras vezes por convicções íntimas. Ainda jovem, fiquei impressionado pela máxima de Schopenhauer: “O homem pode, é certo, fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”; e hoje, diante do espetáculo aterrador das injustiças humanas, esta moral me tranquiliza e me educa. Aprendo a tolerar aquilo que me faz sofrer. Suporto então melhor meu sentimento de responsabilidade. Ele já não me esmaga e deixo de me levar, a mim ou aos outros, a sério demais. Vejo então o mundo com bom humor. Não posso me preocupar com o sentido ou a finalidade de minha existência, nem da dos outros, porque, do ponto de vista estritamente objetivo, é absurdo. E no entanto, como homem, alguns ideais dirigem minhas ações e orientam meus juízos. Porque jamais considerei o prazer e a felicidade como um fim em si e deixo este tipo de satisfação aos indivíduos reduzidos a instintos de grupo.
Em compensação, foram ideais que suscitaram meus esforços e me permitiram viver. Chamam-se o bem, a beleza, a verdade. Se não me identifico com outras sensibilidades semelhantes à minha e se não me obstino incansavelmente em perseguir este ideal eternamente inacessível na arte e na ciência, a vida perde todo o sentido para mim. Ora, a humanidade se apaixona por finalidades irrisórias que têm por nome a riqueza, a glória, o luxo. Desde moço já as desprezava. Tenho forte amor pela justiça, pelo compromisso social. Mas com muita dificuldade me integro com os homens e em suas comunidades. Não lhes sinto a falta porque sou profundamente um solitário. Sinto-me realmente ligado ao Estado, à pátria, a meus amigos, a minha família no sentido completo do termo. Mas meu coração experimenta, diante desses laços, curioso sentimento de estranheza, de afastamento e a idade vem acentuando ainda mais essa distância. Conheço com  lucidez e sem prevenção as fronteiras da comunicação e da harmonia entre mim e os outros homens.
Com isso perdi algo da ingenuidade ou da inocência, mas ganhei minha independência. Já não mais firmo uma opinião, um hábito ou um julgamento sobre outra pessoa. Testei o homem. É inconsistente.

Albert Einstein, in “Como Vejo O Mundo”

A alma que procura

Posted in Livros, Reflexão by usucapiao on 27 de janeiro de 2009

Gabinete de Estudos

Estudante
Faz pouco aqui cheguei, e uso a ocasião
Para vos procurar. Tenho imenso prazer
De a homem como vós falar e conhecer,
A quem todos referem com alta devoção.

Mefistófeles
Agrada-me bastante a tua gentileza!
Sou homem como tantos: Olha! Com certeza
Começaste a estudar. Já tens um professor?

Estudante
Meu desejo é estudar, e o quero com fervor!
Procuro este local com coragem e virtude,
Tenho pouco dinheiro e ardente juventude.
Minha mãe relutou em deixar-me afastar,
Almejo com vigor aqui me aprofundar.

Mefistófeles
A escola que te serve achaste enfim agora.

Estudante (observando o recinto)
Para ser bem sincero almejo ir-me embora.
Estes muros antigos, ambiente abafado,
Em nada isto me agrada, estou desanimado.
O espaço é muito pouco, estreito, desencanta,
Não se vê um jardim, não há nenhuma planta,
Velhas colunas, bancos, completo desalento,
Aqui se embota o ouvido, a vista e o pensamento.

Mefistófeles
Isso depende mais de hábito, também.
Recém-nascido nos braços de sua mãe amua,
Recusa receber o leite que faz bem,
Mas logo com prazer o quer e se habitua;
Assim, também sucede em tetas da sapiência,
Há que sugá-las sempre e com maior veemência.

Estudante
Ao mestre enfim me apego a ter maior regalo,
Dizei, então, dizei: — como posso alcançá-lo?

Mefistófeles
Esclarece primeiro, antes de te afastar;
Das nossas faculdades, qual queres cursar?

Estudante
Pretendo aqui estudar com toda persistência,
Com gosto aprofundar-me em tudo que na terra
E no céu tem origem e real existência.
Ciência e natureza investigar de fato.

Mefistófeles
Enveredas assim pelo caminho exato,
É bom que não te percas com toda essa ciência.

Estudante
Entrego-me ao ofício com todo corpo e alma
Alegre ficaria, entanto, se com calma
Tivesse liberdade e alguma distração,
Nos belos feriados suaves do verão.

Mefistófeles
O tempo esvai-se logo e deves bem gozá-lo,
A ordem e a disciplina ensinam a utilizá-lo.
Aconselho-te, então meu caro amigo,
A primeiro estudar a lógica comigo,
Teu espírito estará por fim bem amestrado,
E em botas espanholas muitíssimas ajustadas
E assim já poderá deslizar, num momento,
Nas estradas suaves de todo pensamento.
Não andarás indeciso a torto e a direito,
Erradio, a vagar, sem o menor proveito.
Aqui te ensinarão, durante muitos dias,
O que de um golpe só comumente fazias,
Qual comer e beber com liberdade, várias
Vezes. Uma, duas, três! Quantas necessárias.
Na verdade isso ocorre em fábrica — pensante
Como do tecelão na máquina possante,
Onde um só pedal move mil filamentos,
Em que as pecinhas vibram em movimentos,
Invisíveis os fios deslizam com pujança,
O filósofo sábio investiga e avança,
Demonstra que no mundo está tudo na ordem:
O primeiro era assim, o segundo também,
Então o terceiro e quarto em seguida vêm.
Se o primeiro e segundo em ordem não se viam,
Terceiro e quarto então jamais se encontrariam.
Isso louvam estudantes em todos os rincões,
Mas nunca eles se tornam ao menos tecelões.
Quem quer investigar e a vida desvendar,
O espírito abandona em primeiro lugar,
E exibe nas suas mãos apenas a matéria.
Infelizmente falta aquela força etérea,
Encheiresin naturae a isso chama a química.
Zomba assim de si mesma a usar estranha mímica!

Estudante
Eu também não entendo o que estais a ensinar-me.

Mefistófeles
Mas na próxima vez, vindo aqui me procurar
Entenderás melhor! REDUZIR é iniciar.
Depois muito te empenha em bem CLASSIFICAR.

Estudante
Eu fico tão confuso ante essa explicação
Qual tivera no crânio uma mó em rotação.

Mefistófeles
Antes de outras ciências humanas desvendar
Deves a metafísica a fundo investigar!
Do mais íntimo da alma arrancar com pujança
O que o cérebro humano em si jamais alcança.
Quer entendas quer não, se a coisa é duvidosa,
Há sempre uma palavra a expressar grandiosa.
Aproveita com afinco o semestre de estudo,
Ordena com cuidado e disciplina tudo.
Cinco horas no dia, medidas na ampulheta.
Sê muito pontual aos toques da sineta!
Antes de ir à escola estuda bem a lição
E os pontos investiga, um a um, na ocasião,
Para que mais e mais progridas no saber.
Não digas nada além do que o livro disser.
Escreve com cuidado, esforço e todo encanto,
Qual se inspirado fosses no Espírito Santo!

Estudante
Não deveis repetir. Não há necessidade!
Sei o valor real de tudo o que ensinais,
Tendo o preto no branco, al não quero mais,
Posso trazê-lo a casa e ter tranqüilidade.

Mefistófeles
Não te almejo esse mal tão duro e tão execrado,
Bem sei como se estuda o direito em verdade.
Herdam-se eternamente as leis e seus direitos,
Como se fossem do povo eterna enfermidade,
Geração a geração se infiltram com mil jeitos,
Lentamente se vão de cidade a cidade.
Razão é contra-senso, o bem se torna injúria;
Pobre de ti se herdares de outros que hão vivido!
E quanto a esse direito atualmente surgido,
Que pena! Nem se fala! É tudo coisa espúria.

Estudante
Minha aversão cresceu com vosso ensinamento,
Feliz o que vos tem como mestre! Talento!
Talvez seja melhor cursar Teologia.

Mefistófeles
Não quero te levar para tal erronia.
O que essa ciência alcança e nos ensina,
Difícil é de evitar em seus falsos caminhos.
Contém tanto veneno escondido que mina!
Difícil é separar dos remédios daninhos.
Melhor que tudo isso é ouvir um só conselho;
Com teu mestre jurar! Fazê-lo o teu espelho!
Como norma geral às palavras te apega!
Entra assim pela porta aberta e bem trafega,
Até o templo santo onde há sabedoria.

Estudante
Mas à palavra a idéia há de ser companhia.

Mefistófeles
Muito bom! Não devemos assim ter tanto medo;
Pois onde falta a idéia, encontra-se um arremedo,
Aplica-se a palavra afinal muito bem.
Com palavras se luta e com heroicidade,
Com palavras se faz sistema que convém,
Em achaques, crê com tal facilidade,
A elas jota algum se rouba na verdade.

Estudante
Perdão, se vos molesto. A prosa não termina.
No entanto algo preciso ainda conhecer.
Que aconselheis então se estudar medicina?
Tereis uma palavra — incentivo a dizer?
Três anos passam logo, o tempo tudo arrasta.
Meu Deus! Essa seara ao certo é muito vasta.
Se tenho um bom conselho, um justo e reto aviso,
Sigo logo o caminho, ao que parece, idôneo.

Mefistófeles (de si para consigo)
Já cansei de falar austero e com siso,
Vou passar a expressar-me, agora, qual demônio.

Mefistófeles (falando alto)
Da medicina é fácil saber o conteúdo,
O que é grande e pequeno estudar neste mundo,
E deixar afinal que se resolva tudo
Como aprouver a Deus, altíssimo, profundo.
Na ciência se perde o homem por inteiro.
Cada qual só assimila um pouco se é capaz.
Aquele que desfruta o momento fugaz,
Esse é para mim um homem verdadeiro!
Ao certo foste feito em alguma perfeição
Coragem, destemor em ti se conciliam,
Se em ti tens confiança e fé, convicção,
Em ti todas as almas, enfim, também confiam.
Aprende sobretudo a lidar com mulheres,
Nelas já são normais achaques, azedumes,
Aos milhares verás ataques e queixumes,
Que podes dominar, depressa, se quiseres.
Com elas há de agir com ares de honradez,
Logo as terás nas mãos seguras de uma vez.
O título de médico inspira confiança
E tua arte abre as portas a outras artes mais;
Ao ser bem recebido atinges sem tardança
O que outros só alcançam em anos infernais.
Toma, como doutor, o pulso e bem manhoso
A esbelta silhueta espreita com maestria
E o laço do espartilho vê onde se esconde…

Estudante
Bravos! Nessa ciência existe um “como” e um “onde”!

Mefistófeles
Cinzenta, caro amigo, é toda teoria,
Verdejante e dourada é a árvore da vida!

Estudante
Eu vos juro, isto é sonho! Oh alma comovida!
Poderei procurar-vos, aqui, outra vez mais,
E a ciência estudar, tão alta, que ensinais?

Mefistófeles
Dentro nas minhas forças, ajudo paciente.

Estudante
Ao sair peço ainda ao ver tanta cultura:
Neste álbum pessoal, que tenho aqui presente,
Lançai alguma coisa e ponde a assinatura.

Mefistófeles
É muito natural! Não há nenhum favor!
(Escreve e devolve o álbum.)

Estudante (lê)
Eritis scuit Deus, scientes bonum et malum.
(Fecha o álbum de maneira respeitosa.)

Goethe, in Fausto

(não tive paciência de escrever o diálogo extamente como está na tradução da obra que possuo então copiei o texto como está no Projeto Goethe.)

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A Grande Estrada

Posted in Livros, Reflexão by usucapiao on 12 de janeiro de 2009

Em algum lugar ao longo da estrada eu sabia que haveria garotas, visões e tudo o mais; na estrada, em algum lugar, a pérola me seria ofertada.( p. 28 )

Acordei com o sol rubro do fim de tarde; e aquele foi um momento marcante em minha vida, o mais bizarro de todos, quando não soube quem eu era – estava longe de casa, assombrado e fatigado pela viagem, num quarto de hotel barato que nunca vira antes, ouvindo o silvo das locomotivas, e o rangers das velhas madeiras do hotel, e passos ressoando no andar de cima, e todos aqueles sons melancólicos, eolhei para o teto rachado e por quinze estranhos segundos realmente não soube quem eu era. Não fiquei apavorado; eu simplesmente era uma outra pessoa, um estranho, e toda a minha existência era uma vida mal-assombrada, a vida de um fantasma.  ( p. 35 )

Os pisos das estações rodoviárias são exatamente iguais no país inteiro, sempre cobertos de baganas e catarros, e eles provocam uma melancolia profunda que só mesmo as rodoviárias poderiam ter. ( p. 57 )

Ela suspirava no escuro, “O que você espera da vida?”, perguntei, eu vivia perguntando isso às garotas.”Não sei”, respondeu. “Apenas servir as mesas e esperar que tudo dê certo”. Ela bocejou. Pus minha mão em sua boca e lhe disse que não bocejasse. Tentei explicar a ela o quão excitado eu estava pela vida e as coisas que poderíamos fazer juntos; dizendo isso, e pensando em deixar Denver dentro de dois dias. Ela se virou, entediada. Ficamos deitados de costas, olhando para o forro e refletindo sobre o que Deus deveria estar pensando quando fez a vida ser tão triste assim. ( p. 81 )

Aquela noite em Harrisburg tive de dormir num banco da estação ferroviária; ao amanhecer o chefe da estação me enxotou. Não é verdade que você começa a vida como uma criancinha crédula sob a proteção paterna? E então chega o dia da indiferença, em que o cara descobre que é um desgraçado, um miserável, fraco, cego e nu, e com a aparência de um fantasma fatigado e fatídico avança trêmulo por uma vida de pesadelo. Me arrastei para fora da estação, desfigurado. Estava fora de mim. Daquela manhã tudo o que eu podia perceber era sua própria palidez, como a palidez de um túmulo. ( p. 138-139 )

O anonimato no mundo dos homens é melhor do que a fama no céu, porque… o que é o céu, no fim das contas? E a terra, o que é? Tudo ilusório. ( p. 300 )

Há sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância. ( p. 305 )

[…] e ninguém, ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa, além dos desamparados andrajos da velhice… ( p. 372 )

Pé na Estrada (On The Road), Jack Kerouac, L&PM Editores

In Jack Kerouac, Pé na Estrada. Porto Alegre, L&PM, 2008. 1 edição.

A visão sobre uma forma de levar a vida

Posted in Livros, Reflexão by usucapiao on 9 de janeiro de 2009

A vida humana não passa de um sonho. Mais de uma pessoa já pensou isso. Pois essa impressão também me acompanha por toda parte. Quando vejo os estreitos limites onde se acham encerradas as faculdades ativas e investigadoras do homem, e como todo o nosso labor visa apenas a satisfazer nossas necessidades, as quais, por sua vez, não tem outro objetivo senão prolongar nossa mesquinha existencia; quando verifico que o nosso espírito só pode encontrar tranqüilidade, quanto a certos pontos das nossas pesquisas, por meio de uma resignação povoada de sonhos, como um presidiário que adornasse de figuras multicoloridas e luminosas perspectivas as paredes da sua célula … tudo isso, Wahlheim, me faz emudecer. Concentro-me e encontro um mundo em mim mesmo! Mas, também aí, é um mundo de pressentimentos e desejos obscuros e não de imagens nítidas e forças vivas. Tudo flutua vagamente nos meus sentidos, e assim, sorrindo e sonhando, prossigo na minha viagem através do mundo.

As crianças – todos os pedagogos eruditos estão de acordo a este respeito – não sabem a razão daquilo que desejam; também os adultos. da mesma forma que as crianças, caminham vacilantes e ao acaso sobre a terra, ignorando, tanto quanto elas, de onde vem e para onde vão. Não avançam nunca segundo uma orientação segura; deixam-se governar, como as crianças, por meio de biscoitos, pedaços de bolo e vara. E, como agem por essa forma, inconscientemente, parece-me, portanto, que se acham subordinados à vida dos sentidos.

Concordo com você (porque já sei que você vai contraditar-me) que os mais felizes são precisamente aqueles que vivem, dia a dia, como as crianças, passeando, despindo e vestindo as suas bonecas; aqueles que rondam, respeitosos, em torno da gaveta onde a mamãe guardou os bombons, e, quando conseguem agarrar, enfim, as gulodices cobiçadas, devoram-nas com sofreguidão e gritam: “Quero mais!” Eis a gente feliz! Também é ditosa a gente que, emprestando nomes pomposos às suas mesquinhas ocupações, e até às suas paixões, conseguem fazê-las passar por gigantescos empreendimentos destinados à salvação e prosperidade do genero humano.. Tanto melhor para os que são assim!. . . Mas aquele, que humildemente reconhece o resultado final de todas as coisas, vendo de um lado como o burgues facilmente arranja o seu pequeno jardim e dele faz um paraíso, e, de outro, como o miserável, arfando sob o seu fardo, segue o seu caminho sem revoltar-se, mas aspirando todos, do mesmo modo, a enxergar ainda por um minuto a luz do sol. . . sim, quem isso observa a margem permanece tranqüilo. Também este se representa a seu modo um universo que tira de si mesmo, e também é feliz porque é homem. E, assim, quaisquer que sejam os obstáculos que entravem seus passos, guarda sempre no coração o doce sentimento de que é livre e poderá, quando quiser, sair da sua prisão.

Os Sofrimentos do Jovem Werther, Goethe

Intelecto, Expectativas, Juízos, Abstração

Posted in Livros, Reflexão by usucapiao on 9 de janeiro de 2009

Desde que a experiência me ensinou ser vão e fútil tudo o que costuma acontecer na vida cotidiana, e tendo eu visto que todas as coisas de que me arreceava ou que temia não continham em si nada de bom nem de mau senão enquanto o ânimo se deixava abalar por elas, resolvi, enfim, indagar se existia algo que fosse o bem verdadeiro e capaz de comunicar-se, e pelo qual unicamente, rejeitado tudo o mais, o ânimo fosse afe tado; mais ainda, se existia algo que, achado e adquirido, me desse para sempre o gozo de uma alegria contínua e suprema. Digo que resolvi enfim porque à primeira vista parecia insensato querer deixar uma coisa certa por outra então incerta. De fato, via as comodidades que se adquirem pela honra e pelas riquezas, e que precisava abster-me de procurá-las, se tencionasse empenhar-me seriamente nessa nova pesquisa. Verificava, assim, que se, por acaso, a suprema felicidade consistisse naquelas coisas, iria privar-me delas; se, porém, nelas não se encontrasse e só a elas me dedicasse, também careceria da mesma felicidade. Ponderava, portanto, interiormente se não seria possível chegar ao novo modo de vida, ou pelo menos à certeza a seu respeito, sem mudar a ordem e a conduta comum de minha existência, o que te ntei muitas vezes, mas em vão. Com efeito, as coisas que ocorrem mais na vida e são tidas pelos homens como o supremo bem resumem-se, ao que se pode depreender de suas obras, nestas três: as riquezas, as honras e a concupiscência. Por elas a mente se vê tão distraída que de modo algum poderá pensar em qualquer outro bem. Realmente, no que tange à concupiscência, o espírito fica por ela de tal maneira possuído como se repousasse num bem, tornando-se de todo impossibilitado de pensar em outra coisa; mas, após a sua fruição, segue-se a maior das tristezas, a qual, se não suspende a mente, pelo menos a perturba e a embota. Também procurando as honras e a riqueza, não pouco a mente se distrai, mormente quando são buscadas apenas por si mesmas, porque entã o serão tidas como o sumo bem. Pela honra, porém, muito mais ainda fica distraída a mente, pois sempre se supõe ser um bem por si e como que o fim último, ao qual tudo se dirige. Além do mais, nestas últimas coisas não aparece, como na concupiscência, o arrependimento. Pelo contrário, quanto mais qualquer delas se possuir, mais aumentará a alegria e consequentemente sempre mais somos incitados a aumentá-las. Se, porém, nos virmos frustrados alguma vez nessa esperança, surge uma extrema tristeza. Por último, a honra representa um grande impedimento pelo fato de precisarmos, para consegui-la, adaptar a nossa vida à opinião dos outros, a saber, fugindo do que os homens em geral fogem e buscando o que vulgarmente procuram.

Spinoza, Tratado Sobre a Correção do Intelecto

Diante da Lei

Posted in Livros, Reflexão, Videos by usucapiao on 7 de janeiro de 2009

Diante da Lei

[…] Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo dirige-se a este porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde. “É possível”, diz o porteiro, “mas agora não”. Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta, e o porteiro se posta ao lado, o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso, o porteiro ri e diz: “Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala, porém, existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a visão do terceiro”, O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo e a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta. Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido, e cansa o porteiro com os seus pedidos. Muitas vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios pergunta-lhe a respeito da sua terra e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que costumam fazer os grandes senhores, e no final repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que se havia equipado bem para a viagem, lança mão de tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Este aceita tudo, mas sempre dizendo: “Eu só aceito para você não achar que deixou de fazer alguma coisa”. Durante todos esses anos, o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos, amaldiçoa em voz alta o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo.  Torna-se infantil, e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião. Finalmente, sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está escurecendo em volta ou se apenas os olhos o enganam. Contudo, agora reconhece no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem. “O que é que você ainda quer saber?”, pergunta o porteiro, “você é insaciável.” “Todos aspiram à lei” diz o homem, “como se explica que, em tantos anos, ninguém além de mim pediu para entrar?” O porteiro percebe que o homem já está no fim, e para ainda alcançar sua audição em declínio, ele berra: “Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a”.

In Franz Kafka, O Processo. São Paulo, Brasiliense, 1995. 6. ed., p. 230-32.

O vídeo é um pequeno trecho do filme O Processo (Le Procès) de Orson Welles, baseado na obra homônima do genial Franz Kafka, autor do qual posteriormente abordarei alguma obra.

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