[ leituras, reflexões, dia-a-dia, e algo mais ]

Luminosidade

Posted in Livros, Reflexão by usucapiao on 15 de fevereiro de 2009

[…] Então, por um instante, tive a mais tremenda sensação de pena dos seres humanos, sejam eles o que forem, o rosto, a boca cheia de dor, personalidades, tentativas de ser alegres, pequenas petulâncias, sensação de perda, piadinhas chatas e vazias que logo seriam esquecidas: ah, para quê? […] Subi a colina aos tropeções, cumprimentado pelos passarinhos, e olhei para as figuras dormentes e acotoveladas no chão. Quem seriam todos esses fantasmas estranhos enraizados a essa tola aventurazinha na terra junto comigo?

Jack Kerouac, in Vagabundos Iluminados

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O caminho do conhecimento e suas distrações

Posted in Livros, Reflexão by usucapiao on 5 de fevereiro de 2009

A compreensão humana não é um exame desinteressado, mas recebe infusões da vontade e dos afetos; disso se originam ciências que podem ser chamadas “ciências conforme a nossa vontade”. Pois um homem acredita mais facilmente no que gostaria que fosse verdade. Assim, ele rejeita coisas difíceis pela impaciência de pesquisar; coisas sensatas, porque diminuem a esperança; as coisas mais profundas da natureza, por superstição; a luz da experiência, por arrogância e orgulho; coisas que não são comumente aceitas, por deferência à opinião do vulgo. Em suma, inúmeras são as maneiras, e às vezes imperceptíveis, pelas quais os afetos colorem e contaminam o entendimento.

Francis Bacon, in Novum Organon

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A alma que procura

Posted in Livros, Reflexão by usucapiao on 27 de janeiro de 2009

Gabinete de Estudos

Estudante
Faz pouco aqui cheguei, e uso a ocasião
Para vos procurar. Tenho imenso prazer
De a homem como vós falar e conhecer,
A quem todos referem com alta devoção.

Mefistófeles
Agrada-me bastante a tua gentileza!
Sou homem como tantos: Olha! Com certeza
Começaste a estudar. Já tens um professor?

Estudante
Meu desejo é estudar, e o quero com fervor!
Procuro este local com coragem e virtude,
Tenho pouco dinheiro e ardente juventude.
Minha mãe relutou em deixar-me afastar,
Almejo com vigor aqui me aprofundar.

Mefistófeles
A escola que te serve achaste enfim agora.

Estudante (observando o recinto)
Para ser bem sincero almejo ir-me embora.
Estes muros antigos, ambiente abafado,
Em nada isto me agrada, estou desanimado.
O espaço é muito pouco, estreito, desencanta,
Não se vê um jardim, não há nenhuma planta,
Velhas colunas, bancos, completo desalento,
Aqui se embota o ouvido, a vista e o pensamento.

Mefistófeles
Isso depende mais de hábito, também.
Recém-nascido nos braços de sua mãe amua,
Recusa receber o leite que faz bem,
Mas logo com prazer o quer e se habitua;
Assim, também sucede em tetas da sapiência,
Há que sugá-las sempre e com maior veemência.

Estudante
Ao mestre enfim me apego a ter maior regalo,
Dizei, então, dizei: — como posso alcançá-lo?

Mefistófeles
Esclarece primeiro, antes de te afastar;
Das nossas faculdades, qual queres cursar?

Estudante
Pretendo aqui estudar com toda persistência,
Com gosto aprofundar-me em tudo que na terra
E no céu tem origem e real existência.
Ciência e natureza investigar de fato.

Mefistófeles
Enveredas assim pelo caminho exato,
É bom que não te percas com toda essa ciência.

Estudante
Entrego-me ao ofício com todo corpo e alma
Alegre ficaria, entanto, se com calma
Tivesse liberdade e alguma distração,
Nos belos feriados suaves do verão.

Mefistófeles
O tempo esvai-se logo e deves bem gozá-lo,
A ordem e a disciplina ensinam a utilizá-lo.
Aconselho-te, então meu caro amigo,
A primeiro estudar a lógica comigo,
Teu espírito estará por fim bem amestrado,
E em botas espanholas muitíssimas ajustadas
E assim já poderá deslizar, num momento,
Nas estradas suaves de todo pensamento.
Não andarás indeciso a torto e a direito,
Erradio, a vagar, sem o menor proveito.
Aqui te ensinarão, durante muitos dias,
O que de um golpe só comumente fazias,
Qual comer e beber com liberdade, várias
Vezes. Uma, duas, três! Quantas necessárias.
Na verdade isso ocorre em fábrica — pensante
Como do tecelão na máquina possante,
Onde um só pedal move mil filamentos,
Em que as pecinhas vibram em movimentos,
Invisíveis os fios deslizam com pujança,
O filósofo sábio investiga e avança,
Demonstra que no mundo está tudo na ordem:
O primeiro era assim, o segundo também,
Então o terceiro e quarto em seguida vêm.
Se o primeiro e segundo em ordem não se viam,
Terceiro e quarto então jamais se encontrariam.
Isso louvam estudantes em todos os rincões,
Mas nunca eles se tornam ao menos tecelões.
Quem quer investigar e a vida desvendar,
O espírito abandona em primeiro lugar,
E exibe nas suas mãos apenas a matéria.
Infelizmente falta aquela força etérea,
Encheiresin naturae a isso chama a química.
Zomba assim de si mesma a usar estranha mímica!

Estudante
Eu também não entendo o que estais a ensinar-me.

Mefistófeles
Mas na próxima vez, vindo aqui me procurar
Entenderás melhor! REDUZIR é iniciar.
Depois muito te empenha em bem CLASSIFICAR.

Estudante
Eu fico tão confuso ante essa explicação
Qual tivera no crânio uma mó em rotação.

Mefistófeles
Antes de outras ciências humanas desvendar
Deves a metafísica a fundo investigar!
Do mais íntimo da alma arrancar com pujança
O que o cérebro humano em si jamais alcança.
Quer entendas quer não, se a coisa é duvidosa,
Há sempre uma palavra a expressar grandiosa.
Aproveita com afinco o semestre de estudo,
Ordena com cuidado e disciplina tudo.
Cinco horas no dia, medidas na ampulheta.
Sê muito pontual aos toques da sineta!
Antes de ir à escola estuda bem a lição
E os pontos investiga, um a um, na ocasião,
Para que mais e mais progridas no saber.
Não digas nada além do que o livro disser.
Escreve com cuidado, esforço e todo encanto,
Qual se inspirado fosses no Espírito Santo!

Estudante
Não deveis repetir. Não há necessidade!
Sei o valor real de tudo o que ensinais,
Tendo o preto no branco, al não quero mais,
Posso trazê-lo a casa e ter tranqüilidade.

Mefistófeles
Não te almejo esse mal tão duro e tão execrado,
Bem sei como se estuda o direito em verdade.
Herdam-se eternamente as leis e seus direitos,
Como se fossem do povo eterna enfermidade,
Geração a geração se infiltram com mil jeitos,
Lentamente se vão de cidade a cidade.
Razão é contra-senso, o bem se torna injúria;
Pobre de ti se herdares de outros que hão vivido!
E quanto a esse direito atualmente surgido,
Que pena! Nem se fala! É tudo coisa espúria.

Estudante
Minha aversão cresceu com vosso ensinamento,
Feliz o que vos tem como mestre! Talento!
Talvez seja melhor cursar Teologia.

Mefistófeles
Não quero te levar para tal erronia.
O que essa ciência alcança e nos ensina,
Difícil é de evitar em seus falsos caminhos.
Contém tanto veneno escondido que mina!
Difícil é separar dos remédios daninhos.
Melhor que tudo isso é ouvir um só conselho;
Com teu mestre jurar! Fazê-lo o teu espelho!
Como norma geral às palavras te apega!
Entra assim pela porta aberta e bem trafega,
Até o templo santo onde há sabedoria.

Estudante
Mas à palavra a idéia há de ser companhia.

Mefistófeles
Muito bom! Não devemos assim ter tanto medo;
Pois onde falta a idéia, encontra-se um arremedo,
Aplica-se a palavra afinal muito bem.
Com palavras se luta e com heroicidade,
Com palavras se faz sistema que convém,
Em achaques, crê com tal facilidade,
A elas jota algum se rouba na verdade.

Estudante
Perdão, se vos molesto. A prosa não termina.
No entanto algo preciso ainda conhecer.
Que aconselheis então se estudar medicina?
Tereis uma palavra — incentivo a dizer?
Três anos passam logo, o tempo tudo arrasta.
Meu Deus! Essa seara ao certo é muito vasta.
Se tenho um bom conselho, um justo e reto aviso,
Sigo logo o caminho, ao que parece, idôneo.

Mefistófeles (de si para consigo)
Já cansei de falar austero e com siso,
Vou passar a expressar-me, agora, qual demônio.

Mefistófeles (falando alto)
Da medicina é fácil saber o conteúdo,
O que é grande e pequeno estudar neste mundo,
E deixar afinal que se resolva tudo
Como aprouver a Deus, altíssimo, profundo.
Na ciência se perde o homem por inteiro.
Cada qual só assimila um pouco se é capaz.
Aquele que desfruta o momento fugaz,
Esse é para mim um homem verdadeiro!
Ao certo foste feito em alguma perfeição
Coragem, destemor em ti se conciliam,
Se em ti tens confiança e fé, convicção,
Em ti todas as almas, enfim, também confiam.
Aprende sobretudo a lidar com mulheres,
Nelas já são normais achaques, azedumes,
Aos milhares verás ataques e queixumes,
Que podes dominar, depressa, se quiseres.
Com elas há de agir com ares de honradez,
Logo as terás nas mãos seguras de uma vez.
O título de médico inspira confiança
E tua arte abre as portas a outras artes mais;
Ao ser bem recebido atinges sem tardança
O que outros só alcançam em anos infernais.
Toma, como doutor, o pulso e bem manhoso
A esbelta silhueta espreita com maestria
E o laço do espartilho vê onde se esconde…

Estudante
Bravos! Nessa ciência existe um “como” e um “onde”!

Mefistófeles
Cinzenta, caro amigo, é toda teoria,
Verdejante e dourada é a árvore da vida!

Estudante
Eu vos juro, isto é sonho! Oh alma comovida!
Poderei procurar-vos, aqui, outra vez mais,
E a ciência estudar, tão alta, que ensinais?

Mefistófeles
Dentro nas minhas forças, ajudo paciente.

Estudante
Ao sair peço ainda ao ver tanta cultura:
Neste álbum pessoal, que tenho aqui presente,
Lançai alguma coisa e ponde a assinatura.

Mefistófeles
É muito natural! Não há nenhum favor!
(Escreve e devolve o álbum.)

Estudante (lê)
Eritis scuit Deus, scientes bonum et malum.
(Fecha o álbum de maneira respeitosa.)

Goethe, in Fausto

(não tive paciência de escrever o diálogo extamente como está na tradução da obra que possuo então copiei o texto como está no Projeto Goethe.)

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Intelecto, Expectativas, Juízos, Abstração

Posted in Livros, Reflexão by usucapiao on 9 de janeiro de 2009

Desde que a experiência me ensinou ser vão e fútil tudo o que costuma acontecer na vida cotidiana, e tendo eu visto que todas as coisas de que me arreceava ou que temia não continham em si nada de bom nem de mau senão enquanto o ânimo se deixava abalar por elas, resolvi, enfim, indagar se existia algo que fosse o bem verdadeiro e capaz de comunicar-se, e pelo qual unicamente, rejeitado tudo o mais, o ânimo fosse afe tado; mais ainda, se existia algo que, achado e adquirido, me desse para sempre o gozo de uma alegria contínua e suprema. Digo que resolvi enfim porque à primeira vista parecia insensato querer deixar uma coisa certa por outra então incerta. De fato, via as comodidades que se adquirem pela honra e pelas riquezas, e que precisava abster-me de procurá-las, se tencionasse empenhar-me seriamente nessa nova pesquisa. Verificava, assim, que se, por acaso, a suprema felicidade consistisse naquelas coisas, iria privar-me delas; se, porém, nelas não se encontrasse e só a elas me dedicasse, também careceria da mesma felicidade. Ponderava, portanto, interiormente se não seria possível chegar ao novo modo de vida, ou pelo menos à certeza a seu respeito, sem mudar a ordem e a conduta comum de minha existência, o que te ntei muitas vezes, mas em vão. Com efeito, as coisas que ocorrem mais na vida e são tidas pelos homens como o supremo bem resumem-se, ao que se pode depreender de suas obras, nestas três: as riquezas, as honras e a concupiscência. Por elas a mente se vê tão distraída que de modo algum poderá pensar em qualquer outro bem. Realmente, no que tange à concupiscência, o espírito fica por ela de tal maneira possuído como se repousasse num bem, tornando-se de todo impossibilitado de pensar em outra coisa; mas, após a sua fruição, segue-se a maior das tristezas, a qual, se não suspende a mente, pelo menos a perturba e a embota. Também procurando as honras e a riqueza, não pouco a mente se distrai, mormente quando são buscadas apenas por si mesmas, porque entã o serão tidas como o sumo bem. Pela honra, porém, muito mais ainda fica distraída a mente, pois sempre se supõe ser um bem por si e como que o fim último, ao qual tudo se dirige. Além do mais, nestas últimas coisas não aparece, como na concupiscência, o arrependimento. Pelo contrário, quanto mais qualquer delas se possuir, mais aumentará a alegria e consequentemente sempre mais somos incitados a aumentá-las. Se, porém, nos virmos frustrados alguma vez nessa esperança, surge uma extrema tristeza. Por último, a honra representa um grande impedimento pelo fato de precisarmos, para consegui-la, adaptar a nossa vida à opinião dos outros, a saber, fugindo do que os homens em geral fogem e buscando o que vulgarmente procuram.

Spinoza, Tratado Sobre a Correção do Intelecto